Poucas áreas da medicina mudaram tanto nos últimos anos quanto o tratamento da obesidade. Medicamentos como semaglutida e tirzepatida transformaram o tratamento da obesidade e levaram muita gente a questionar se ainda existe espaço para a cirurgia bariátrica. A resposta é sim — mas a escolha do tratamento está cada vez mais individualizada.
Durante décadas, pacientes com obesidade importante tinham basicamente três caminhos: mudanças no estilo de vida, medicamentos com resultados muitas vezes limitados ou, nos casos indicados, cirurgia bariátrica.
A chegada de uma nova geração de medicamentos mudou esse cenário.
Os agonistas de GLP-1 e medicamentos que atuam em mais de uma via hormonal trouxeram resultados expressivos para muitos pacientes, reduzindo o apetite, aumentando a saciedade e permitindo perdas de peso que, até pouco tempo atrás, eram difíceis de alcançar sem cirurgia.
Diante disso, uma pergunta começou a aparecer com frequência nos consultórios:
Se temos medicamentos tão eficazes para emagrecer, ainda precisamos fazer cirurgia bariátrica?
Sim.
As novas medicações não decretaram o fim da bariátrica. O que elas fizeram foi ampliar as possibilidades de tratamento da obesidade — e tornar a decisão muito mais personalizada.
Obesidade não é simplesmente excesso de peso
Para entender essa discussão, precisamos primeiro abandonar a ideia de que tratar obesidade significa apenas fazer o número da balança diminuir.
Obesidade é uma doença crônica e complexa, associada a alterações metabólicas e a maior risco de problemas como diabetes tipo 2, hipertensão arterial, apneia do sono, doenças cardiovasculares e alterações hepáticas, entre outras condições.
Portanto, quando decidimos entre tratamento clínico, medicamentoso ou cirúrgico, não deveríamos perguntar apenas: “Qual deles emagrece mais?”.
Precisamos avaliar a gravidade da obesidade, as doenças associadas, o histórico de tentativas anteriores, o comportamento alimentar, as características individuais, os riscos de cada tratamento e a capacidade de manter o resultado no longo prazo.
É justamente aí que a cirurgia continua tendo um papel muito importante.
Quem ainda deve considerar a bariátrica?
As indicações internacionais de cirurgia metabólica e bariátrica evoluíram.
Atualmente, sociedades médicas internacionais recomendam a cirurgia para pessoas com IMC igual ou superior a 35 kg/m², independentemente da presença ou da gravidade de doenças associadas. Ela também é recomendada para pacientes com diabetes tipo 2 e IMC a partir de 30 kg/m².
Em pessoas com IMC entre 30 e 34,9 kg/m², a cirurgia pode ser considerada quando não se consegue obter perda de peso substancial e duradoura ou melhora das doenças associadas com métodos não cirúrgicos.
Isso não significa, evidentemente, que toda pessoa que se enquadre nesses critérios deva ser operada.
A indicação é individual e deve resultar de uma avaliação completa.
“Mas não seria melhor tentar a caneta primeiro?”
Para muitos pacientes, medicamentos podem, sim, fazer parte da estratégia inicial.
Mas transformar isso em uma regra universal seria simplificar novamente uma doença que não é simples.
Há pessoas que respondem muito bem ao tratamento medicamentoso. Outras não alcançam perda de peso suficiente. Algumas apresentam efeitos adversos que dificultam a continuidade. Existem ainda pacientes que recuperam parte do peso depois da interrupção do tratamento.
Também há situações de obesidade mais grave ou com importantes repercussões metabólicas nas quais a cirurgia pode oferecer benefícios relevantes e duradouros.
A escolha precisa considerar algo que muitas vezes é esquecido quando comparamos tratamentos: o que funciona para aquela pessoa no longo prazo?
A bariátrica também não é apenas uma cirurgia para “diminuir o estômago”
Outro equívoco comum é imaginar que a cirurgia funciona exclusivamente porque faz a pessoa comer menos.
Procedimentos como o bypass gástrico e a gastrectomia vertical, conhecida como sleeve, provocam também alterações em mecanismos hormonais e metabólicos relacionados à fome, saciedade e utilização da glicose pelo organismo.
Por isso utilizamos cada vez mais o termo cirurgia metabólica e bariátrica.
Além da perda de peso, ela pode proporcionar melhora importante de doenças associadas à obesidade, como diabetes tipo 2, hipertensão e apneia do sono.
É uma intervenção potente, mas não é uma solução mágica.
Cirurgia exige acompanhamento para o resto da vida
Assim como não devemos banalizar o uso das canetas emagrecedoras, também não podemos banalizar uma cirurgia bariátrica.
Todo procedimento cirúrgico possui riscos.
Além das complicações precoces, pacientes submetidos à cirurgia podem apresentar, dependendo da técnica utilizada, deficiências nutricionais e outras alterações que exigem acompanhamento.
Por isso, a cirurgia não termina quando o paciente recebe alta hospitalar.
O tratamento exige acompanhamento médico e nutricional, atenção à ingestão de proteínas, vitaminas e minerais quando indicados, atividade física e mudanças sustentáveis de comportamento.
E existe outro ponto fundamental: cirurgia bariátrica não torna ninguém imune ao reganho de peso.
Uma parcela dos pacientes pode voltar a ganhar peso ao longo dos anos. Quando isso acontece, é necessário investigar as causas e reorganizar o tratamento.
Caneta e cirurgia não precisam ser adversárias
Talvez essa seja uma das principais mudanças na maneira como devemos enxergar o tratamento da obesidade.
Não precisamos escolher um “time”.
Medicamentos e cirurgia podem ocupar momentos diferentes da trajetória do mesmo paciente.
Uma pessoa pode responder bem ao tratamento medicamentoso e nunca precisar de cirurgia. Outra pode ter indicação cirúrgica desde o início. Há ainda pacientes operados que, anos depois, podem se beneficiar de tratamento farmacológico para ajudar no controle do peso.
O futuro provavelmente será cada vez menos “remédio ou cirurgia” e cada vez mais qual combinação de ferramentas oferece o melhor resultado para este paciente?
Então, a bariátrica vai acabar?
Não há evidências de que estejamos caminhando para isso.
A cirurgia metabólica e bariátrica continua sendo uma das ferramentas mais eficazes disponíveis para determinados pacientes com obesidade, com capacidade de produzir perda de peso significativa e melhora de diversas doenças relacionadas à obesidade.
Ao mesmo tempo, os novos medicamentos representam um avanço extraordinário e permitem tratar muitas pessoas sem uma intervenção cirúrgica.
Isso é uma boa notícia.
A medicina não deveria torcer para que um tratamento vença o outro. Deveria desejar ter cada vez mais opções.
O grande avanço das canetas emagrecedoras talvez não seja tornar a bariátrica obsoleta, mas nos obrigar a fazer uma pergunta muito melhor do que fazíamos no passado.
Então: “quem deve operar?”. Entre todas as ferramentas que temos disponíveis, qual é a melhor estratégia para tratar a obesidade desta pessoa — e ajudá-la a manter o resultado durante muitos anos?
É essa resposta, construída individualmente entre paciente e equipe de saúde, que deve determinar o tratamento.
Dr Rodrigo Barbosa, cirurgião digestivo sub-especializado em cirurgia bariátrica e coloproctologia do corpo clínico dos hospitais Sírio Libanês e Nove de Julho. Sou também CEO do Instituto Medicina em Foco




