Quando se fala em amamentação, quase toda a atenção costuma se voltar para o bebê. O leite materno é reconhecido por sua importância na imunidade, no desenvolvimento e na nutrição infantil, mas essa experiência também provoca mudanças importantes no corpo, na rotina e na saúde emocional da mulher.
Ao mesmo tempo em que pode trazer benefícios físicos e afetivos, amamentar nem sempre acontece de forma simples. Dor, insegurança, cansaço e cobranças podem atravessar esse período. “A saúde mental materna precisa ocupar um lugar central nessa conversa”, diz Suellen Oliveira, ginecologista do Hospital Quali Ipanema, em entrevista à AnaMaria.
O que acontece no corpo da mulher durante a amamentação?
Durante a amamentação, o organismo feminino ativa uma série de mecanismos hormonais importantes nesse período pós-parto. A sucção do bebê estimula a produção de ocitocina, hormônio que ajuda o útero a voltar ao tamanho pré-gestacional e contribui para reduzir o sangramento puerperal. Além disso, o corpo aumenta o gasto energético para sustentar a produção de leite.
A amamentação também envolve uma troca muito íntima entre mãe e filho: “A liberação de ocitocina e prolactina está relacionada à sensação de vínculo, acolhimento e proximidade afetiva”, explica a médica.
Mas Suellen faz um alerta importante: falar sobre recuperação pós-parto não deveria significar apenas recuperar a aparência física. Segundo ela, muitas mães sentem uma pressão silenciosa para retomar rapidamente a produtividade, a disposição e o corpo de antes da gestação, o que pode tornar o puerpério um período muito solitário.
Quando a culpa atravessa a maternidade
Embora frequentemente apresentada como algo instintivo, a amamentação nem sempre acontece de forma simples. Nos primeiros dias, é comum surgirem dores, fissuras mamárias, dificuldade na pega correta, percepção de pouco leite e exaustão física e emocional.
Somado a isso, existe uma expectativa social idealizada sobre a maternidade. Quando surgem dificuldades, muitas mulheres passam a se sentir culpadas ou incapazes. “Elas frequentemente sentem frustração ou sensação de fracasso, como se o problema estivesse nelas e não na ausência de suporte adequado”, afirma Suellen.
A especialista reforça que o sofrimento intenso não deve ser normalizado. Dor persistente durante as mamadas, febre, sinais de mastite, dificuldade do bebê em ganhar peso ou sensação constante de angústia são sinais de que é hora de buscar ajuda profissional.
Amamentação reduz risco de morte infantil. Foto: FreePik
O que merece atenção no início da amamentação:
Dor intensa durante as mamadas;
Fissuras e machucados nas mamas;
Febre e sinais de inflamação;
Sensação de exaustão extrema;
Sofrimento emocional persistente;
Dificuldade do bebê em ganhar peso.
Benefícios a longo prazo
Além dos benefícios imediatos, a ciência já associa a amamentação à redução do risco de doenças ao longo da vida da mulher, especialmente câncer de mama e câncer de ovário. Segundo Suellen, parte dessa proteção está relacionada à menor exposição ao estrogênio durante a vida reprodutiva. “A lactação provoca adaptações metabólicas importantes no organismo materno e parece participar dessa proteção a longo prazo”, explica. Estudos também observam associação entre amamentação prolongada e menor risco de diabetes tipo 2, hipertensão e doenças cardiovasculares.
Ainda assim, a médica reforça que essas informações precisam ser comunicadas sem transformar mães em alvo de culpa. Nem toda mulher consegue amamentar exclusivamente, seja por dor, questões emocionais, dificuldades físicas, retorno precoce ao trabalho ou ausência de rede de apoio.
“A ciência mostra benefícios reais da amamentação, e eles são importantes. Mas talvez o maior desafio seja construir uma conversa em que informação e acolhimento caminhem juntos”, afirma.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1535, de 21 de agosto de 2026). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.
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