Os fones de ouvido se tornaram praticamente uma extensão do nosso corpo. Eles estão presentes no caminho para o trabalho ou para a escola, na academia, durante os estudos, nas reuniões on-line, nos jogos e nos momentos de lazer. Para algumas pessoas, permanecem nos ouvidos até na hora de dormir, reproduzindo podcasts, músicas, sons relaxantes ou ruído branco.
Como otorrinolaringologista, observo que, quando falamos sobre os riscos associados aos fones, quase toda a atenção se concentra no volume. E, de fato, ouvir sons em intensidade elevada é um dos principais fatores de risco para a audição. Mas não é o único.
Precisamos considerar também quanto tempo passamos usando os fones, a frequência desse hábito, as condições de higiene, a presença de suor e umidade e até o costume de dormir com eles.
O problema, portanto, não está necessariamente no fone em si, mas na exposição praticamente contínua que estamos criando.
1. Dormir de fone significa acrescentar horas de exposição
Um dos hábitos que merece atenção é dormir ouvindo algum tipo de conteúdo. Mesmo quando o volume parece baixo ou confortável, deixar o áudio ligado durante parte ou toda a noite acrescenta várias horas ao tempo de exposição sonora acumulado durante o dia.
Quando avaliamos possíveis riscos para a audição, intensidade e duração precisam ser analisadas em conjunto. De maneira geral, quanto maior a intensidade sonora, menor deve ser o período de exposição.
Por isso, não basta dizer: “Eu não escuto tão alto”. É preciso perguntar: por quanto tempo? Quantas vezes por semana? E durante quantas horas ao longo do dia?
Se uma pessoa utiliza fones no transporte, no trabalho, durante exercícios e ainda dorme com eles, estamos falando de um ouvido exposto a estímulos por uma parcela muito grande do dia.
2. Umidade, suor e falta de higiene também podem causar problemas
Outro ponto pouco lembrado é que o canal auditivo possui pele e mecanismos naturais de proteção.
Quando mantemos um objeto no ouvido por períodos prolongados, principalmente associado ao calor, suor e umidade, podemos dificultar a ventilação e aumentar o atrito na região. Isso pode favorecer irritações e problemas no ouvido externo.
É comum, por exemplo, alguém terminar um treino com os fones úmidos de suor e continuar utilizando-os por bastante tempo. Esse hábito merece atenção.
Dor, coceira, secreção ou sensação persistente de ouvido tampado não devem ser encaradas como consequências normais do uso de fones. São sinais que justificam avaliação médica, especialmente quando se repetem.
Também precisamos falar sobre a higiene do equipamento. O fone passa pelas mãos, bolsos, mochilas, bolsas, mesas e diferentes superfícies antes de voltar diretamente para o ouvido.
Por isso, deve ser higienizado seguindo as orientações do fabricante e não deve ser compartilhado. Depois de exercícios ou quando houver umidade, é importante permitir que tanto o ouvido quanto o equipamento sequem adequadamente antes de voltar a utilizá-lo.
3. O próprio celular pode ajudar a cuidar da audição
A tecnologia que aumentou nossa exposição aos fones também pode ser uma aliada da prevenção.
Alguns celulares e sistemas operacionais possuem recursos que acompanham os níveis de áudio dos fones, enviam alertas quando identificam exposição sonora elevada e permitem limitar o volume máximo.
Muita gente simplesmente ignora essas informações.
Se o aparelho começa a alertar repetidamente que a exposição sonora está elevada, vale enxergar isso como uma oportunidade para rever três fatores: volume, duração e frequência de uso.
Outro cuidado importante está nos ambientes barulhentos. No metrô, ônibus, academia ou em uma rua movimentada, temos a tendência de aumentar o volume para fazer o som do fone competir com o ruído externo. Muitas vezes, fazemos isso automaticamente e nem percebemos o quanto aumentamos.
4. A perda auditiva pode começar de maneira discreta
A preocupação com a audição não deve começar apenas quando alguém percebe que está “ouvindo mal”.
Alguns sinais podem ser sutis, como precisar aumentar progressivamente o volume dos dispositivos, ter dificuldade para compreender conversas em locais barulhentos, perceber o ouvido abafado depois de longos períodos usando fones ou apresentar zumbido após retirá-los.
Esses sintomas não significam necessariamente que exista uma perda auditiva instalada, mas não devem ser ignorados quando são persistentes ou recorrentes.
Precisamos mudar a lógica de esperar um problema importante aparecer para só então cuidar da audição.
O jovem de hoje provavelmente continuará utilizando fones e outros dispositivos de áudio durante muitas décadas. Portanto, não devemos pensar apenas no volume utilizado nesta semana ou neste mês, mas na exposição sonora acumulada ao longo da vida.
Fones de ouvido fazem parte da vida moderna e não precisam ser tratados como vilões. Podemos continuar ouvindo música, estudando, trabalhando, jogando ou acompanhando nossos conteúdos favoritos.
O cuidado está no equilíbrio.
Quando o fone passa a acompanhar uma pessoa praticamente do momento em que ela acorda até a hora de dormir — ou até mesmo durante o sono —, é importante rever esse comportamento. Nossa audição precisa durar muito mais do que a bateria dos nossos dispositivos.





