Música e saúde mental: cantar em grupo pode fortalecer vínculos e autoestima

Cantar, aprender um instrumento e dividir uma música com outras pessoas podem abrir espaço para encontros, expressão e acolhimento. Para Paulo Portella, CEO da School of Rock Brasil e Ibéria, e o médico Douglas Déo Ribeiro, aluno da unidade Recife, a prática musical coletiva oferece oportunidades de fortalecer vínculos e a autoconfiança. A proximidade do Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado em 10 de outubro, convida a olhar para essas experiências como parte do cuidado com o bem-estar.

Em uma rotina atravessada por telas e dificuldades de convivência presencial, participar de um ensaio pode representar uma oportunidade de dedicar atenção ao outro. Ouvir, esperar a própria vez e construir uma apresentação são experiências que combinam aprendizado musical e relações humanas. O valor desse encontro vai além da execução correta de uma canção: envolve encontrar espaço para participar, errar e continuar aprendendo.

Um palco para construir confiança

Na avaliação de Paulo Portella, o aprendizado em grupo ajuda os alunos a enfrentar inseguranças com apoio. Subir ao palco envolve exposição, preparação e disposição para lidar com imprevistos, em um ambiente no qual o resultado depende da colaboração entre os participantes.

“Quando um aluno sobe ao palco, ele passa a exercitar o risco e desafia suas vulnerabilidades ao criar conexões pessoais reais e encontrar apoio nelas”, afirma o executivo.

Portella destaca que o ensaio exige presença e envolvimento. Ao acompanhar os colegas, cada integrante precisa reconhecer seu papel na banda e ajustar sua participação ao conjunto. Nesse processo, o erro pode ser trabalhado como parte do aprendizado, enquanto as conquistas ganham uma dimensão compartilhada.

A experiência também permite perceber que ninguém precisa realizar tudo sozinho. Uma apresentação reúne esforços diferentes, e o apoio entre os participantes pode tornar o desafio de cantar ou tocar diante do público menos solitário.

O que as famílias perceberam

Um levantamento da Sound Diplomacy divulgado pela School of Rock, descrito pela rede como baseado em quase quatro mil entrevistas, reuniu percepções sobre a experiência musical. Segundo os dados apresentados, 96% dos pais notaram aumento na autoconfiança dos filhos e 81% perceberam que eles estavam mais felizes após iniciarem a prática na escola.

Os números refletem avaliações das famílias no contexto pesquisado. Não demonstram, por si só, que aulas de música tratem transtornos mentais ou produzam os mesmos resultados em todas as pessoas.

Ainda assim, ajudam a compreender aspectos valorizados pelos responsáveis: sentir segurança para participar, criar amizades e acompanhar as próprias conquistas. Para crianças e adolescentes, essas experiências também oferecem situações concretas de convivência, com espaço para colaboração e reconhecimento.

“É sobre pertencer. A música cria amizades, fortalece a autoestima e lembra aos alunos que eles não precisam enfrentar tudo sozinhos”, diz Paulo Portella.

Música como apoio ao bem-estar

A relação entre atividades artísticas e saúde tem sido objeto de pesquisas. Uma revisão publicada pela Organização Mundial da Saúde em 2019 reuniu resultados de mais de três mil estudos sobre o papel das artes na promoção da saúde e no cuidado ao longo da vida. who.int

Esse panorama ajuda a contextualizar a música como uma possibilidade de expressão e participação social. Esse cuidado deve ser individualizado. Também é necessário distinguir uma experiência de educação musical de um acompanhamento terapêutico específico.

Para Douglas Déo Ribeiro, ouvir, cantar e tocar têm importância em sua relação com o bem-estar. O médico destaca especialmente a possibilidade de reconstruir vínculos por meio da criação e da execução musical compartilhadas.

“Uma ação crucial nesse propósito é o estabelecimento de conexões sociais reais, o estímulo a atividades que reconectem as pessoas e promovam a sensação de pertencimento a um, ou mais grupos”, afirma.

Um recomeço depois do tratamento

O depoimento de Douglas Déo Ribeiro traz uma dimensão pessoal ao tema. Durante sua atuação na linha de frente da pandemia de covid-19, ele enfrentou sofrimento intenso e desenvolveu dependência de medicamentos psicoestimulantes, conforme relata.

Depois de alguns meses de tratamento, decidiu estudar música e retomar o antigo desejo de cantar. A prática passou a integrar seu processo de reconstrução, oferecendo uma experiência que ele associa à continuidade da própria vida.

“Foi depois de alguns meses de tratamento que decidi estudar música, que resolvi tocar adiante meu antigo sonho de cantar”, conta.

Seu relato evidencia uma trajetória individual, na qual o tratamento antecedeu a retomada desse projeto. A música aparece como uma fonte de sentido e convivência, sem substituir o acompanhamento profissional.

Cuidar também envolve acolher

Portella também menciona situações em que alunos expressaram sofrimento durante os ensaios. Esses episódios reforçam a importância de ambientes atentos, capazes de acolher e reconhecer quando há necessidade de apoio psicológico ou médico.

No Dia Mundial da Saúde Mental, a reflexão passa por ampliar oportunidades de encontro. Uma banda, um coral ou uma aula podem oferecer espaço para escuta e participação. Para as fontes, compartilhar música é também uma forma de compartilhar presença.

Com colaboração de Davi Brandão.