Receber o diagnóstico de uma doença grave costuma desencadear uma série de preocupações imediatas voltadas à cura. Contudo, para crianças, adolescentes e adultos jovens, existe uma questão de extrema relevância que precisa ser discutida desde o primeiro momento: o impacto que o tratamento oncológico pode causar no futuro reprodutivo.
Nesse sentido, uma revisão sistemática publicada na revista Reproductive Toxicology reforçou que procedimentos convencionais afetam negativamente a capacidade de ter filhos. Por outro lado, especialistas destacam que técnicas modernas de criopreservação permitem manter acesa essa possibilidade para quando a cura for alcançada.
Segundo Ramon Andrade de Mello, oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, esse diálogo deve ocorrer logo após o diagnóstico:
“O tratamento do câncer não deve focar apenas na cura da doença, mas também na qualidade de vida do paciente após o tratamento. Muitos tumores acometem pessoas em idade reprodutiva e, sempre que possível, devemos orientar sobre o risco de infertilidade e encaminhar rapidamente para avaliação com um especialista em Reprodução Humana. Em muitos casos, esse planejamento pode ser realizado sem comprometer o início do tratamento oncológico”
Por que os tratamentos afetam o sistema reprodutor?
A pesquisa mostra que o estresse oxidativo e a destruição celular gerados pelas terapias provocam uma redução na função dos testículos e ovários. Com isso, ocorre uma queda drástica na produção de hormônios e na formação de gametas.
Além disso, importantes entidades internacionais, como a Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), recomendam o acolhimento precoce. Para o especialista em Reprodução Humana, Rodrigo Rosa, o encaminhamento rápido é fundamental:
“As diretrizes também orientam que, sempre que houver indicação clínica e tempo hábil antes do início da terapia antineoplásica, esses pacientes sejam encaminhados para avaliação especializada em Reprodução Humana, a fim de discutir as opções de preservação da fertilidade de forma individualizada”
Da mesma forma, o Dr. Ramon Andrade de Mello reforça que diferentes intervenções trazem riscos específicos:
“Quimioterápicos, especialmente alguns agentes alquilantes, podem lesar as células responsáveis pela produção dos gametas. A radioterapia também pode comprometer ovários e testículos quando essas regiões são irradiadas ou recebem doses significativas de radiação. O risco varia conforme a idade do paciente, o tipo de tratamento e a dose utilizada, mas essa possibilidade deve sempre ser considerada antes do início da terapia”
Complementando essa visão, o Dr. Rodrigo Rosa traz uma mensagem de esperança:
“Os tratamentos oncológicos podem ser extremamente agressivos para as células reprodutivas. Essas células dão origem aos óvulos e aos espermatozoides e podem sofrer danos permanentes dependendo do tratamento realizado. Felizmente, hoje dispomos de técnicas que permitem preservar a fertilidade antes do início da quimioterapia ou da radioterapia, oferecendo aos sobreviventes do câncer a possibilidade de terem filhos no futuro”
Quais são as alternativas disponíveis para homens e mulheres?
A tecnologia atual oferece caminhos seguros e eficientes para diferentes faixas etárias e necessidades.
Para homens após a puberdade: A principal estratégia é o congelamento de espermatozoides. Sobre o processo, o Dr. Rodrigo Rosa explica: “É um procedimento relativamente simples, realizado por meio da coleta do sêmen antes do início do tratamento oncológico. Esse material permanece criopreservado e poderá ser utilizado futuramente em técnicas de reprodução assistida, caso seja necessário”
Para mulheres em idade fértil: Realiza-se a estimulação ovariana para congelar os óvulos.
Para meninas que não atingiram a puberdade: A alternativa viável pode ser a criopreservação do próprio tecido ovariano.
Posteriormente, esses materiais genéticos são mantidos em tanques de nitrogênio líquido por tempo indeterminado. Segundo o Dr. Rodrigo Rosa: “Essa criopreservação pode durar décadas. Quando o paciente estiver curado e desejar constituir uma família, esse material poderá ser utilizado conforme cada situação clínica. Os óvulos e espermatozoides podem ser empregados em tratamentos de fertilização in vitro. Já o tecido ovariano pode ser reimplantado posteriormente, permitindo, em muitos casos, a recuperação da função hormonal e reprodutiva”.
Especialistas destacam que técnicas modernas de criopreservação permitem manter acesa essa possibilidade para quando a cura for alcançada – Canva Equipes/Karola G de Pexels
O papel da integração médica no sucesso do tratamento
Como ressalta Mello: “Hoje entendemos que o cuidado oncológico deve ser multidisciplinar. O encaminhamento precoce para o especialista em Reprodução Humana faz parte desse atendimento integral. Mesmo em um momento de enorme impacto emocional, conversar sobre fertilidade significa oferecer ao paciente a oportunidade de planejar sua vida após o câncer, considerando não apenas a sobrevivência, mas também seus projetos pessoais e familiares”
Por fim, Rosa conclui lembrando que a agilidade salva planos de vida: “Os médicos devem orientar pacientes e familiares sobre os riscos reprodutivos do tratamento e sobre as alternativas disponíveis. Embora o diagnóstico de câncer seja naturally a prioridade, preservar a fertilidade é uma possibilidade que não pode ser perdida quando existe indicação e tempo para isso”
Resumo
Em suma, o sucesso da chamada oncofertilidade depende diretamente da agilidade e do trabalho em conjunto entre oncologistas e especialistas em reprodução.
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