Poucos territórios tão pequenos geram tanta polêmica no mundo atualmente. E a disputa começa já no nome: Falklands ou Malvinas, a escolha de como chamar esse arquipélago a cerca de 500 km da costa da Patagônia Argentina já é uma tomada de partido sobre quem você acha que deveria controlar o aglomerado de rochas de 12 mil km² (menor que todos os 26 estados brasileiros, à frente só do Distrito Federal) que pouco mais de 3,6 mil pessoas chamam de lar.
Alvo de uma infame guerra em 1982, que consolidou o domínio britânico sobre as ilhas, o arquipélago é reivindicado pela Argentina desde o século 19, mas, na prática, é administrado continuamente pelo Reino Unido há quase 200 anos. O interesse na disputa foi reacendido na última Copa do Mundo, quando os argentinos triunfaram na semifinal sobre a Inglaterra e, em meio às comemorações, exibiram em campo uma faixa levada pela torcida com os dizeres “las Malvinas son Argentinas“.
Mais do que um território disputado, o amontoado de ilhas rochosas também é um refúgio para animais e aves marinhas, que aproveitam o isolamento das Falklands/Malvinas (neste texto os nomes serão usados de forma intercambiável) para procriar sem os perigos da intervenção humana.
Conheça um pouco mais sobre o histórico de disputas em torno do arquipélago – e o que ver por lá em uma visita para esse canto pouco frequentado do mundo.
Desembarque nas FalklandsSe Mo/Wikimedia Commons
As Malvinas são argentinas?
Aos olhos da própria Argentina, não há nenhuma dúvida: até a Constituição dos nossos hermanos define as Malvinas como parte do território nacional – ao lado de outros arquipélagos vulcânicos inabitados controlados pelo Reino Unido, como as Ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul. De acordo com a Carta Magna argentina, a reivindicação desse território é um objetivo legítimo, imprescritível e irrenunciável para o país. Em Buenos Aires, existe até um museu dedicado inteiramente ao tema: é o Museo Malvinas e Islas del Atlántico Sur, que trata de aspectos geográficos e históricos das ilhas, mergulhando também na guerra e nos argumentos do país para reclamar o controle do arquipélago.
Esse entendimento transcende qualquer corrente política no país vizinho: a guerra pelas ilhas foi promovida pela última ditadura militar, que governou a Argentina entre 1976 e 1983 e, de lá para cá, todos os governos insistiram no tema, da esquerda peronista à gestão ultraliberal de Javier Milei. É bem verdade que a questão das Malvinas se tornou, também, uma distração conveniente, que costuma voltar com mais força ao debate público quando a gestão do momento vive uma crise de popularidade e precisa ocupar o noticiário com outro assunto. Mas a reivindicação nunca foi deixada de lado.
No Chile, faixa com as cores da bandeira argentina recorda os 649 soldados mortos na guerra que tentou capturar as Malvinas em 1982CB2022/Wikimedia Commons
A questão é que a história é um pouco mais complexa do que a proximidade das Falklands com a Argentina no mapa pode sugerir. As ilhas nunca tiveram população nativa: foram descobertas originalmente por navegadores europeus, que se alternaram no controle de diferentes partes do arquipélago ao longo do século 18: franceses e ingleses fundaram povoamentos em cantos diferentes da ilha, e os nomes atuais são herança desse período – Malvinas é uma espanholização de Malouines, nome que os franceses deram em homenagem aos seus marinheiros, originários da cidade de Saint-Malo; já o Visconde Falkland era um nobre britânico que ajudou a financiar a expedição rumo ao arquipélago.
Mais tarde, os franceses repassaram o controle de seu assentamento à Espanha. Na época, não existia Argentina independente: Buenos Aires era parte do Vice-Reino do Rio da Prata, uma das subdivisões do vasto império hispano-americano. Quando os argentinos enfim se tornaram autônomos, veio a semente da disputa que segue até hoje: o país alega que o direito espanhol sobre as ilhas era repassado automaticamente ao novo país, algo contestado pelo Reino Unido. Na prática, a Argentina só manteve uma presença no arquipélago de forma esporádica entre 1820 e 1833, quando sua pequenina guarnição foi expulsa pelos ingleses.
Vista de Stanley, a capital, onde mais de 80% da população do arquipélago viveLiam Quinn/Wikimedia Commons
Desde então, os dois países travam disputas em tribunais internacionais sobre quem deveria controlar o arquipélago, mas são os ingleses que conseguiram manter uma população permanente no local, que se identifica com a metrópole, mesmo estando a quase 13 mil quilômetros de distância da Grã-Bretanha.
Com exceção da guerra de 1982, vencida pelos britânicos em apenas 74 dias, não houve outras tentativas bélicas de retomar o controle para a Argentina. Em 2013, um referendo conduzido nas ilhas questionou a população atual sobre o status das Falklands, e 99,8% disseram que desejavam seguir como território ultramarino do Reino Unido – foram 1.513 votos a favor e três contra.
O que ver por lá
O destaque do arquipélago é seu isolamento: historicamente, a população que se estabeleceu ali viveu da pesca e da criação de ovelhas, sem a instalação de indústrias ou o estabelecimento de grandes cidades. Por isso, o ponto alto de uma viagem para as Malvinas é a diversidade da fauna nativa, que pode ser vista bem de perto.
Pinguins na Yorke BayMegan Rose Monkman/Unsplash
Graças à localização no sul do mundo, muitos animais tipicamente associados às regiões antártica e patagônica passam ou vivem por ali. Leões marinhos e focas são alguns dos animais que roubam a cena, mas as colônias mais significativas são de albatrozes (em particular o albatroz-de-sobrancelha-preta) e pinguins. Há uma quantidade imensamente maior de animais do que de humanos nas ilhas: só de pinguins, estima-se que as colônias abriguem quase 800 mil aves, de espécies variadas que incluem os gentoo, os pinguins-reis, os macaroni e os pinguins-de-magalhães.
Lugares populares para o avistamento dos diferentes bichos incluem a Yorke Bay, relativamente próxima da capital Stanley, onde é possível testemunhar os pinguins-de-magalhães, e a Bertha’s Beach, onde pinguins-gentoo dividem a paisagem com golfinhos. A Ilha Saunders, a oeste, é um ponto para quem deseja ver os albatrozes. Já para ver os mamíferos, a pedida é contratar um tour até a autodescritiva Sea Lion Island, uma importante reserva onde se reproduzem os próprios leões-marinhos e também elefantes-marinhos, a cerca de 14 km a sudeste das ilhas principais.
Foto de arquivo mostra um FIGAS, serviço aéreo interno das ilhas, pousando na pista de terra da Sea Lion IslandChris Pearson/Wikimedia Commons
Para quem também se interessa pela história, moradores locais oferecem tours guiados passando por campos de batalha e compartilham vivências da guerra de 1982: ainda existem locais inacessíveis nas Falklands, tomados por campos minados, que estão devidamente cercados e demarcados. Em Stanley, o Historic Dockyard Museum conta sobre a vida, a natureza e a guerra a partir da perspectiva dos habitantes locais, que se autodefinem simplesmente como islanders.
Como chegar
A Latam opera um voo a partir de Punta Arenas, na Patagônia Chilena, até a base militar de Mount Pleasant, localizada a cerca de 50 km de Stanley. São cerca de 90 minutos de viagem. Uma vez por semana, também há partidas de Santiago do Chile até as Malvinas, com escala em Punta Arenas. Partindo da Europa, o voo mais direto é controlado pela própria Força Aérea Real britânica: a aeronave parte da base de Brize Norton, a cerca de 120 km de Londres, e segue até Mount Pleasant sem escalas, apenas com uma parada de reabastecimento.
Uma vez no arquipélago, a maneira de ir de uma ilha a outra costuma ser o FIGAS, sigla para Falkland Islands Government Air Serive – um avião de nove lugares sem tabela de horários definida, cujas viagens são organizadas de acordo com a demanda do próprio dia. O FIGAS parte do aeroporto civil de Stanley. Para os corajosos, é uma maneira de ter uma experiência aérea para lá de raiz rumo a lugares inacessíveis: o avião pousa em praias e planícies sem pavimentação, conforme as condições do dia e o roteiro dos viajantes.
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