Aos 90 anos, Carlos Alberto de Nóbrega recebeu indicação de marcapasso depois de ser infectado pelo vírus Coxsackie tipo 2. A infecção desequilibrou a insuficiência cardíaca que o apresentador já tratava, os batimentos ficaram lentos demais, quadro conhecido como bradicardia, e outras alterações de ritmo apareceram.
Desde a semana passada ele está internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Segundo o SBT News, o apresentador teve melhora no quadro, e a equipe médica reavaliou o momento da cirurgia para implantar o aparelho, que teve a data alterada. Renata de Nóbrega, médica e esposa do apresentador, também apresentou sintomas, sem precisar de internação.
Família de vírus aparentada com a da pólio
Quem tem filho pequeno costuma associar o Coxsackie à síndrome mão-pé-boca, infecção que espalha feridas pela boca e pintinhas pelas palmas das mãos e solas dos pés e passa facilmente de uma criança para outra, como descreve a Sociedade Brasileira de Pediatria. O vírus pertence aos enterovírus, mesmo grupo do causador da poliomielite.
Como o vírus Coxsackie, comum em crianças, chegou ao coração de Carlos Alberto de Nóbrega (Foto: Magnific)
Existem dois ramos. No A estão 23 tipos, ligados à mão-pé-boca. No B ficam seis tipos, que com mais frequência atingem órgãos como coração, pâncreas, fígado e sistema nervoso. Há um tipo 2 em cada ramo, e o que foi divulgado sobre a internação do apresentador não esclarece qual deles provocou a infecção.
Boa parte da população já teve contato com ele sem saber. Uma pesquisa feita na Itália identificou marcas de infecção antiga em cerca de 70% dos participantes. Na prática, o vírus costuma se disfarçar de resfriado, diarreia ou febre passageira, e o diagnóstico nem chega a ser feito.
Fezes, saliva e superfícies espalham a infecção
A transmissão acontece sobretudo pelo contato com fezes contaminadas, e a eliminação do vírus segue por semanas mesmo depois que a pessoa já se sente bem.
Saliva, gotículas respiratórias e objetos tocados por quem está infectado também levam o vírus adiante, o que explica surtos em casa, na creche e na escola.
Da boca ao músculo cardíaco
Depois de entrar pela boca, o vírus se multiplica no intestino e ganha a circulação. No sangue, procura células que têm na superfície um receptor onde consegue se prender, como uma chave numa fechadura. No coração, esses receptores ficam concentrados nos pontos de ligação entre as células musculares, os mesmos caminhos usados pelos impulsos elétricos que marcam o compasso do coração.
O cirurgião cardiovascular Ricardo Kazunori, da BP, A Beneficência Portuguesa de São Paulo, descreve um ataque em duas frentes: o vírus lesa a célula diretamente, e a resposta de defesa do corpo acrescenta inflamação ao dano. Surge assim a miocardite. Se a inflamação alcança a rede elétrica do órgão, o impulso que define o ritmo perde velocidade ou fica bloqueado em parte do percurso, e os batimentos diminuem.
Em geral, esse bloqueio provocado por miocardite viral regride. Há, porém, registros raros de casos em que a falha se tornou definitiva e o paciente precisou de marcapasso permanente, incluindo episódios após infecção pelo Coxsackie B2. O aparelho passa a gerar os impulsos elétricos que o coração deixou de produzir sozinho.
Quem precisa de mais cuidado
Bebês recém-nascidos, pessoas com defesas baixas e quem já tem doença cardíaca ou neurológica formam o grupo com maior chance de complicação, conforme revisão atualizada em julho na plataforma de educação médica StatPearls. Um coração com insuficiência, que já trabalha com bombeamento reduzido, tem pouca reserva para enfrentar uma inflamação extra.
Procure atendimento com urgência diante de dor no peito, falta de ar, coração disparado ou febre persistente. Dor de cabeça intensa acompanhada de pescoço rígido, confusão ou convulsão sugere que o sistema nervoso foi atingido e também pede socorro. No caso dos bebês, febre associada a dificuldade para mamar, sonolência fora do comum ou irritabilidade exige avaliação imediata.
O pâncreas é outro alvo do vírus, e cientistas investigam se infecções que se prolongam teriam algum papel no aparecimento do diabetes tipo 1. Essa relação ainda não foi comprovada.
Sem vacina nem remédio específico
Quando o quadro é leve, o médico identifica a infecção pelos sintomas, sem exames. Em situações graves ou fora do padrão, e também em recém-nascidos e pacientes com imunidade comprometida, entra um exame que procura o material genético do vírus no sangue, no líquor (líquido que banha o cérebro e a medula) ou em tecido do coração.
Ainda não há antiviral capaz de eliminar o Coxsackie, e também não existe vacina. O cuidado se concentra em aliviar o desconforto e proteger os órgãos: líquidos e medicação para febre e dor nos casos simples, acompanhamento do coração e remédios para insuficiência cardíaca quando surge miocardite, e aparelhos que ajudam a circulação nas situações mais sérias. O marcapasso resolve o problema de ritmo, enquanto o vírus segue sem tratamento direcionado.
A principal proteção é lavar as mãos com água e sabão, com atenção redobrada depois da troca de fraldas e da ida ao banheiro e antes de cozinhar ou comer. Vale ainda higienizar superfícies e objetos muito tocados, separar talheres e itens pessoais de quem está doente e caprichar na higiene durante a gestação, porque a mãe pode transmitir o vírus ao bebê.
Resumo: Carlos Alberto de Nóbrega, de 90 anos, recebeu indicação de marcapasso depois que o vírus Coxsackie tipo 2 agravou sua insuficiência cardíaca. Comum e quase sempre leve, o vírus, em casos raros, inflama o coração; não há vacina nem antiviral, e lavar as mãos é a principal forma de prevenção.
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