Canetas emagrecedoras: quanto de massa magra posso perder durante o tratamento?

A resposta não é exatamente simples e também não existe um percentual universal considerado seguro para todas as pessoas. De maneira geral, especialistas ouvidos por AnaMaria explicam que, em processos de emagrecimento, cerca de 25% a 30% do peso perdido pode corresponder à massa magra. O objetivo do tratamento, entretanto, é fazer com que a maior parte possível da redução venha da gordura, preservando a musculatura e a função física.

“Não existe um limite universal que, sozinho, classifique uma perda de peso como saudável”, explica o médico cardiologista intervencionista Fábio Kanamaru. Segundo ele, como referência aproximada, muitos programas de emagrecimento observam cerca de 75% da redução vindo de gordura e 25% de massa magra,  mas essa proporção não deve ser encarada como uma meta clínica individual.

O médico nutrólogo e especialista em Medicina Esportiva, Renato Lobo, segue uma linha semelhante. Segundo ele, a perda de massa magra pode representar aproximadamente 30% do peso eliminado em processos de emagrecimento, embora o percentual varie de acordo com idade, estado nutricional, velocidade da perda de peso e estratégias adotadas durante o tratamento.

O que os estudos dizem sobre as canetas?

Os estudos de composição corporal realizados com semaglutida e tirzepatida ajudam a entender quanto da perda de peso pode vir da gordura e quanto pode corresponder à chamada massa magra.

No caso da semaglutida, uma análise exploratória do estudo STEP 1, intitulada “Impact of Semaglutide on Body Composition in Adults With Overweight or Obesity: Exploratory Analysis of the STEP 1 Study”, publicada no Journal of the Endocrine Society em 2021, avaliou a composição corporal de 140 participantes por meio de densitometria por DXA.

Após 68 semanas, os participantes que receberam semaglutida 2,4 mg apresentaram redução média de 15% do peso corporal. A massa de gordura total caiu 19,3%, enquanto a massa corporal magra diminuiu 9,7% em relação aos valores iniciais. Ao mesmo tempo, a proporção de massa magra em relação ao peso corporal aumentou 3 pontos percentuais.

É importante fazer uma ressalva: esses números não significam que 9,7% do peso perdido tenha sido músculo. Massa magra não é sinônimo de massa muscular, ela inclui água e outros tecidos e componentes do organismo. “Massa magra medida em exames não é sinônimo de músculo, e nenhum número isolado substitui a avaliação de força e função”, explica Kanamaru.

Já no caso da tirzepatida, o estudo “Body composition changes during weight reduction with tirzepatide in the SURMOUNT-1 study of adults with obesity or overweight”, publicado em 2025 no periódico Diabetes, Obesity and Metabolism, analisou um subgrupo de 160 participantes do SURMOUNT-1 por meio de DXA.

Depois de 72 semanas, os participantes tratados com tirzepatida apresentaram redução média de 21,3% do peso corporal. A massa de gordura caiu 33,9%, enquanto a massa magra diminuiu 10,9%. Quando os pesquisadores analisaram a composição do peso perdido, aproximadamente 74% da redução veio da massa de gordura e 26% da massa magra.

Em termos práticos, se uma pessoa perdesse 10 kg mantendo exatamente essa proporção observada no estudo, cerca de 7,4 kg corresponderiam à massa de gordura e 2,6 kg à massa magra.

Mas isso é apenas uma ilustração da proporção encontrada na pesquisa — não significa que 26% seja uma quantidade de perda de massa magra considerada segura ou desejável para qualquer pessoa.

Então, quanto de massa magra posso perder?

Os especialistas ouvidos por AnaMaria usam como referência uma perda de aproximadamente 25% a 30% do peso eliminado como massa magra durante processos de emagrecimento. No entanto, isso não deve ser interpretado como uma espécie de “cota” que pode ser perdida sem preocupação.

A proporção pode mudar de acordo com idade, alimentação, nível de atividade física, composição corporal inicial, velocidade do emagrecimento e condições de saúde.

Além disso, o conceito de massa magra precisa ser entendido corretamente. Uma redução desse compartimento identificada em um exame não significa necessariamente uma perda equivalente de músculo.

“Perder massa magra em um exame, isoladamente, não diagnostica sarcopenia”, explica Kanamaru. Segundo ele, parte dessa medida corresponde a água e outros tecidos, e a avaliação deve considerar também força e desempenho funcional.

Por isso, mais importante do que perseguir um percentual específico é observar como o organismo está respondendo ao emagrecimento.

Por que preservar os músculos é importante?

O músculo está longe de ser apenas uma questão estética. Ele participa dos movimentos, do equilíbrio e da realização de tarefas cotidianas e também tem papel importante no metabolismo da glicose.

A perda progressiva de força e de quantidade ou qualidade muscular pode levar à sarcopenia, condição associada a maior risco de quedas, fraturas, limitações funcionais e perda de independência.

Existe ainda a chamada obesidade sarcopênica, quando excesso de gordura e baixa força ou musculatura coexistem. Nesse caso, o peso e o índice de massa corporal (IMC) podem esconder um problema que não aparece na balança.

“Você pode ter peso ‘normal’ ou ‘aumentado’ e ter sarcopenia”, alerta Kanamaru.

Proteína ajuda a preservar massa muscular?

Sim, mas ela não atua sozinha. Durante o tratamento com semaglutida ou tirzepatida, a redução do apetite pode fazer com que algumas pessoas consumam menos alimentos,  inclusive fontes de proteína. Se a ingestão alimentar ficar muito baixa, pode haver dificuldade para fornecer ao organismo os nutrientes necessários para a manutenção dos tecidos.

“As proteínas fornecem os aminoácidos necessários para a manutenção e a reparação dos tecidos, enquanto os exercícios de força estimulam a musculatura e ajudam a preservar sua massa e função”, explica Lobo.

Uma referência citada pelos especialistas é uma ingestão de aproximadamente 1,2 a 1,5 grama de proteína por quilo de peso corporal por dia durante a fase ativa de emagrecimento. Lobo cita uma faixa de 1,2 a 1,6 g/kg/dia.

Esses números, porém, não devem ser usados como uma prescrição automática. Em pessoas com obesidade, por exemplo, calcular a quantidade simplesmente com base no peso atual pode superestimar a necessidade. A meta deve ser individualizada de acordo com composição corporal, idade, estado nutricional e condições clínicas.

E o treino de força?

Assim como a proteína, o treinamento de força é apontado pelos especialistas como uma das principais estratégias para preservar a musculatura durante o emagrecimento. “Proteína sem estímulo muscular não substitui o exercício, e exercício sem ingestão alimentar suficiente pode limitar a preservação muscular”, explica Kanamaru.

Por isso, a combinação entre alimentação adequada e exercício resistido tende a ser mais importante do que apostar exclusivamente em um dos dois. A frequência e a intensidade do treino, entretanto, devem ser adaptadas à condição física de cada pessoa, especialmente no caso de idosos, indivíduos frágeis ou pessoas com limitações para realizar exercícios.

Como saber se estou perdendo músculo demais?

A composição corporal pode ser acompanhada por exames como bioimpedância e, quando indicada, densitometria por DXA. Mas os especialistas ressaltam que esses exames não devem ser analisados isoladamente.

“Um número isolado não substitui a avaliação de força e função”, afirma Kanamaru.

Entre os sinais de alerta estão:

dificuldade para levantar da cadeira;
dificuldade para subir escadas;
perda de força para carregar objetos;
redução do desempenho nos exercícios;
lentidão para caminhar;
piora do equilíbrio;
quedas;
maior dificuldade para realizar atividades do cotidiano;
perda persistente de apetite;
ingestão alimentar muito baixa;
emagrecimento muito rápido.

A perda de peso acelerada também merece atenção quando vem acompanhada de fraqueza ou redução importante da ingestão alimentar. Nesses casos, a equipe de saúde pode avaliar a alimentação, o ritmo do emagrecimento, o programa de exercícios e a necessidade de ajustes no tratamento.

Quem precisa de atenção especial?

Alguns grupos podem apresentar maior risco de perda excessiva de massa muscular durante o emagrecimento. Entre eles estão idosos, pessoas que já apresentam baixa massa muscular ou força, sedentários, indivíduos com doenças crônicas ou risco de desnutrição.

Também merecem atenção pessoas que apresentam náuseas, vômitos ou saciedade intensa a ponto de comerem muito pouco, além de pacientes com doenças renais ou hepáticas e pessoas com histórico de cirurgia bariátrica.

Mulheres no período pós-menopausa também podem precisar de acompanhamento individualizado, considerando as mudanças relacionadas à saúde muscular e óssea.

Afinal, perder muitos quilos pode ser um resultado ruim?

Sim, pois uma balança comum mostra apenas o peso total. Ela não revela quanto da redução veio da gordura, da massa magra ou de outros componentes.

Uma pessoa pode, portanto, perder muitos quilos e ainda apresentar um resultado menos favorável se houver uma redução importante da força e da funcionalidade.

“A balança mostra o peso total, não quanto veio de gordura, músculo, água ou osso”, explica Kanamaru.

Por isso, o objetivo não deve ser simplesmente perder o maior número possível de quilos, mas reduzir o excesso de gordura preservando, tanto quanto possível, a musculatura e a capacidade funcional.

No fim das contas, os estudos mostram que uma parcela da perda de peso durante o tratamento com as canetas pode vir da massa magra. A proporção observada nas pesquisas fica em torno de um quarto da perda total, mas isso não é uma meta ou um limite de segurança.

O melhor resultado é aquele em que a redução de gordura acontece sem comprometer força, mobilidade, autonomia e estado nutricional.