Uma paciente com arritmia fez 916 eletrocardiogramas no próprio smartwatch ao longo de um ano e foi várias vezes ao pronto-socorro depois de relatórios inconclusivos do aparelho. O caso aparece em um estudo de pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, publicado em 2024 no jornal da American Heart Association. No trabalho, um em cada cinco pacientes com fibrilação atrial, um tipo de arritmia, que usavam dispositivos vestíveis apresentou sinais de ansiedade e buscou atendimento médico após notificações do equipamento.
Relógios, anéis e outros sensores medem batimentos, qualidade do sono, nível de estresse e variações na oxigenação do sangue, e transformam tudo em gráficos. Os dados ajudam a cuidar da saúde, mas também alimentam a ansiedade e a hipocondria, principalmente quando a pessoa ainda joga os resultados em ferramentas como o ChatGPT.
Quando dormir bem vira meta a ser batida
A procura obsessiva pelo sono perfeito ganhou até nome: ortossonia. O neurologista Alan Luiz Eckeli, professor de medicina do sono da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, descreve o paradoxo. A preocupação em dormir bem aumenta o estado de alerta e a hipervigilância, o contrário do relaxamento de que o corpo precisa para pegar no sono.
Ortossonia: a obsessão pelo sono perfeito no smartwatch que acaba tirando o seu sono (Foto: Magnific)
Um estudo da Universidade de Bergen e do Hospital Universitário Haukeland, na Noruega, publicado em março na revista Frontiers in Psychology, mediu esse efeito. Cerca de 14% de quem usa ou já usou aplicativos de monitoramento do sono passou a se preocupar com a ideia de que algo estava errado. Outros 11,2% relataram estresse ligado aos dados, e 2,3% notaram piora real no descanso.
Alan lembra que o aparelho não mede o sono diretamente: ele faz uma estimativa sujeita a erros. Uma tarde chuvosa de sábado maratonando série no sofá, quieta, no escuro e com o coração batendo devagar, corre o risco de ser registrada pelo relógio como horas de sono.
O ciclo vicioso dos batimentos
A psicóloga Lindsey Rosman, professora assistente de cardiologia da Universidade da Carolina do Norte e líder do estudo com pacientes de arritmia, atende muita gente aflita com os números dos dispositivos. A pessoa checa a frequência cardíaca sem parar, fica mais ansiosa, o coração acelera e o número alto parece confirmar o perigo, o que leva a checar de novo. Lindsey defende que os benefícios desses aparelhos sejam testados com o mesmo rigor aplicado a um medicamento novo.
O psiquiatra Márcio Bernik, coordenador do Programa de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria da USP, observa que quem já tem comportamento ansioso tende a piorar com métricas e cobrança constante, já que o ambiente digital não dá folga. A ansiedade é mais frequente entre mulheres jovens, sobretudo dos 15 aos 30 anos, enquanto a hipocondria, o medo intenso de estar doente, se distribui de forma mais equilibrada entre os sexos. Nesses casos, os dados viram uma busca de garantia de que está tudo bem, e as interpretações catastróficas geram sofrimento.
Como usar o relógio sem cair na armadilha
O pós-doutor em psiquiatria Cristiano Nabuco, reitor da Artmed School of Psychology, afirma que pessoas com ansiedade prévia precisam de cuidado redobrado, porque os aparelhos funcionam como combustível para a hipervigilância. O caminho passa pela psicoeducação, que ajuda a entender os gatilhos dos sintomas, e por respiração profunda, exercícios de relaxamento, atividades ao ar livre e acompanhamento psicológico, em especial a terapia cognitivo-comportamental (TCC).
Uma sugestão prática de Cristiano é caminhar sem o relógio e prestar atenção no trajeto e nas pessoas ao redor, tirando o foco do próprio corpo.
A servidora pública Daniela Loureiro, de 51 anos, encontrou um meio-termo. Com orientação médica, passou a usar nos exercícios uma pulseira inteligente sem tela, que registra calorias e frequência cardíaca sem mostrar os números em tempo real, e deixa o aparelho em casa durante as férias.
Resumo: A ortossonia é a busca obsessiva pelo sono perfeito medido por smartwatches e aplicativos, que aumenta o estado de alerta e atrapalha o adormecer. Os aparelhos fazem estimativas com margem de erro, e quem já tem ansiedade se beneficia de usar o relógio com limites, técnicas de relaxamento e, se preciso, terapia.
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