Dificuldade de concentração, pensamentos acelerados, inquietação, esquecimentos e sensação de sobrecarga. Quem apresenta esses comportamentos pode se perguntar se está vivendo um quadro de ansiedade ou se tem Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). A dúvida é compreensível, já que algumas manifestações podem ser bastante semelhantes. Mas existe uma diferença fundamental entre essas duas condições que precisa ser compreendida.
Primeiro, é importante esclarecer que a ansiedade, por si só, não é um transtorno. Ela é uma emoção natural, uma resposta do organismo diante de situações que despertam preocupação, expectativa ou percepção de ameaça. Sentir ansiedade antes de uma prova, de uma entrevista de emprego ou de uma decisão importante faz parte da experiência humana. O problema surge quando essa resposta se torna excessiva, persistente e começa a comprometer a rotina, podendo caracterizar um transtorno de ansiedade.
Já o TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento, caracterizado por um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade e impulsividade, que interfere no funcionamento e no desenvolvimento da pessoa. Suas manifestações começam na infância, embora o diagnóstico nem sempre aconteça nessa fase.
Por que os sintomas podem ser confundidos?
Uma pessoa ansiosa pode apresentar dificuldade para manter a atenção porque sua mente está ocupada com preocupações, antecipação de problemas e pensamentos sobre situações que ainda não aconteceram. É como tentar realizar uma tarefa enquanto diversas possibilidades negativas passam continuamente pela cabeça.
No TDAH, a dificuldade de concentração está relacionada a alterações no funcionamento de processos como atenção, planejamento, organização e controle dos impulsos. A pessoa pode começar várias atividades e não conseguir concluí-las, esquecer compromissos, perder objetos e ter dificuldade para administrar o tempo, mesmo quando não está preocupada com alguma situação específica.
A inquietação também pode aparecer nos dois casos. Na ansiedade, pode estar associada à tensão e à sensação de alerta. No TDAH, pode representar uma manifestação de hiperatividade, que nem sempre aparece como movimento físico. Em adultos, por exemplo, pode ser percebida como uma inquietação interna ou dificuldade para desacelerar.
Uma revisão publicada em 2018 na revista Paediatrics & Child Health, intitulada ADHD in children and youth: Part 1 — Etiology, diagnosis, and comorbidity, destaca que transtornos de ansiedade estão entre as condições que podem ser confundidas com o TDAH durante a investigação diagnóstica. Os autores reforçam a importância de uma avaliação abrangente para diferenciar sintomas semelhantes e identificar possíveis condições associadas.
E quando ansiedade e TDAH coexistem?
Outro ponto importante é que uma condição não exclui a outra. Uma pessoa pode ter TDAH e também desenvolver um transtorno de ansiedade.
Um estudo longitudinal publicado em 2021 na revista Research on Child and Adolescent Psychopathology, conduzido por Gair e colaboradores, acompanhou 258 crianças a partir dos três anos de idade. Os pesquisadores observaram que sintomas de TDAH em fases anteriores estavam associados a níveis posteriores mais elevados de ansiedade nessa amostra. O resultado reforça a importância de acompanhar o desenvolvimento emocional de crianças com manifestações de TDAH, embora não estabeleça uma relação causal definitiva.
Na prática, uma criança que enfrenta dificuldades frequentes para organizar suas atividades, acompanhar o ritmo escolar ou lidar com situações cotidianas pode desenvolver insegurança, medo de errar e preocupação excessiva. Essas experiências podem contribuir para o aparecimento de sintomas ansiosos.
O diagnóstico exige olhar para a história de cada pessoa
Não basta identificar distração, inquietação ou dificuldade de organização para concluir que alguém tem TDAH. É necessário investigar quando os sintomas começaram, como se manifestam em diferentes ambientes e quais prejuízos provocam na vida cotidiana.
As diretrizes da Academia Americana de Pediatria (AAP), publicadas em 2019 na revista Pediatrics, recomendam que a avaliação de crianças e adolescentes com suspeita de TDAH também investigue condições coexistentes, incluindo transtornos de ansiedade, depressão e dificuldades de aprendizagem.
A avaliação psicológica e neuropsicológica pode contribuir para compreender o funcionamento cognitivo e emocional, identificar dificuldades e potencialidades e auxiliar na investigação. Entretanto, nenhum teste isolado determina um diagnóstico. A conclusão depende da integração da história clínica, dos sintomas, dos prejuízos funcionais e da avaliação realizada por profissional habilitado.
Mais do que colocar um nome em determinado comportamento, precisamos compreender o que está por trás dele. Nem toda distração é TDAH, assim como sentir ansiedade não significa necessariamente ter um transtorno de ansiedade. Diferenciar essas experiências é o primeiro passo para evitar rótulos equivocados, buscar o acompanhamento adequado e oferecer condições para que cada pessoa desenvolva suas potencialidades com mais qualidade de vida.






