Caneta emagrecedora virou comprimido

A aprovação do Wegovy em comprimidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), anunciada nesta quarta-feira (4), representa mais uma possibilidade no tratamento da obesidade e do sobrepeso em pacientes com indicação clínica. Mas a novidade também traz uma dúvida importante: será que tomar um comprimido, em vez de aplicar uma injeção, significa ter menos efeitos colaterais no estômago e no intestino?

Como cirurgião do aparelho digestivo, considero importante esclarecer que a mudança na forma de administração não significa que o medicamento deixe de provocar efeitos gastrointestinais.

A semaglutida, princípio ativo do Wegovy, atua nos receptores de GLP-1, envolvidos na regulação do apetite, da saciedade e do esvaziamento gástrico. Isso significa que, independentemente de ser administrada por injeção ou comprimido, ela continua interferindo no funcionamento do sistema digestivo.

Um dos seus principais efeitos é retardar o esvaziamento do estômago. Na prática, os alimentos podem permanecer por mais tempo nesse órgão, prolongando a sensação de saciedade. Esse mecanismo ajuda no controle da ingestão alimentar, mas também explica por que algumas pessoas apresentam náuseas, vômitos, sensação de estômago cheio, empachamento e refluxo durante o tratamento.

É comum que os pacientes associem esses sintomas exclusivamente às canetas emagrecedoras. Entretanto, não é a agulha que provoca essas alterações, mas a ação do medicamento no organismo. Portanto, trocar a injeção pelo comprimido não elimina automaticamente esses desconfortos.

E o que acontece com o intestino?

Outro efeito que merece atenção é a constipação intestinal. Durante o tratamento com semaglutida, algumas pessoas passam a evacuar com menos frequência ou apresentam maior dificuldade para eliminar as fezes.

Isso pode acontecer por diferentes motivos. Além das alterações na motilidade gastrointestinal, o paciente geralmente passa a comer menos e, consequentemente, pode reduzir o consumo de fibras e líquidos. Essa combinação favorece o intestino preso.

Também é importante entender que nem todo desconforto abdominal deve ser considerado uma consequência esperada do medicamento.

Náuseas leves e alterações do hábito intestinal podem ocorrer, especialmente no início do tratamento ou após ajustes de dose. Porém, dor abdominal intensa, vômitos persistentes, distensão importante e dificuldade para eliminar gases ou fezes são sinais que exigem avaliação médica.

Existem ainda complicações menos frequentes, mas que precisam ser conhecidas, como pancreatite e problemas na vesícula biliar. Uma dor abdominal forte e persistente, principalmente quando acompanhada de vômitos, não deve ser ignorada.

Outro ponto importante envolve pacientes que já apresentam doenças digestivas. Pessoas com gastroparesia, condição em que o estômago demora excessivamente para esvaziar, precisam de atenção especial, já que a semaglutida pode agravar esse problema. O medicamento não é recomendado para pacientes com gastroparesia grave.

Quem apresenta refluxo importante, constipação crônica ou outros sintomas gastrointestinais também deve passar por uma avaliação individualizada antes de iniciar o tratamento.

Mas o comprimido é mais seguro para o estômago?

Essa é uma pergunta que provavelmente será cada vez mais frequente nos consultórios. E a resposta é que não podemos considerar uma apresentação mais segura para o aparelho digestivo apenas porque ela é tomada pela boca.

As versões oral e injetável apresentam diferenças na absorção, nas doses e na frequência de administração. Entretanto, ambas contêm semaglutida e podem causar efeitos gastrointestinais. A frequência e a intensidade desses sintomas precisam ser avaliadas considerando os estudos de cada apresentação, as doses utilizadas e as características de cada paciente.

Também não devemos imaginar que o comprimido seja simplesmente uma caneta transformada em pílula. Existem particularidades na administração e na absorção da versão oral, e as doses das duas apresentações não são diretamente intercambiáveis.

A chegada de uma nova opção terapêutica é positiva, especialmente para pessoas que têm dificuldade ou resistência ao uso de medicamentos injetáveis. Mas essa facilidade não pode ser confundida com liberdade para iniciar, interromper ou trocar o tratamento por conta própria.

A obesidade é uma doença crônica e complexa, que exige acompanhamento individualizado. Os medicamentos podem ser aliados importantes, mas precisam fazer parte de uma estratégia que considere alimentação, condições clínicas, saúde digestiva e acompanhamento profissional.

O que gostaria que os pacientes entendessem é simples: mudar a forma de tomar o medicamento não muda o fato de que ele age sobre o sistema digestivo. O comprimido pode substituir a necessidade de uma injeção em determinados tratamentos, mas não elimina os cuidados necessários com o estômago e o intestino.

Mais importante do que escolher entre caneta e comprimido é encontrar o tratamento adequado para cada pessoa, com segurança, indicação médica e atenção aos sinais que o próprio organismo apresenta.

Dr Rodrigo Barbosa, cirurgião digestivo sub-especializado em cirurgia bariátrica e coloproctologia do corpo clínico dos hospitais Sírio Libanês e Nove de Julho. Sou também CEO do Instituto Medicina em Foco