Um artigo publicado na revista Nature Communications revela que a gravidade de Marte pode influenciar, de forma lenta e sutil, a órbita da Terra ao longo de milhões de anos. Embora os dois planetas estejam separados por grandes distâncias, eles exercem forças gravitacionais um sobre o outro. Esse efeito é fraco, mas contínuo, e seus impactos se acumulam com o passar do tempo.
Essas interações são chamadas de perturbações gravitacionais. A cada cerca de 26 meses, Terra e Marte entram em oposição, momento em que ficam mais próximos. Nessa configuração, Marte exerce um pequeno “empurrão” na órbita terrestre. Esse ajuste é mínimo, mas repetido ao longo de eras geológicas.
Com o tempo, essas pequenas mudanças podem alterar levemente o formato da órbita da Terra e a inclinação do seu eixo. Essas variações influenciam a quantidade de radiação solar que atinge o planeta. Como consequência, podem provocar mudanças graduais nos padrões climáticos em escalas de milhões de anos.
marte terra – Crédito: BT Image – Shutterstock
Interação gravitacional com Marte influencia os oceanos da Terra
O estudo também analisou o comportamento dos oceanos profundos, que estão longe de serem estáticos. Essas águas circulam continuamente, transportando calor, sais e gases pelo planeta. Além disso, ajudam a moldar o relevo do fundo do mar, especialmente quando suas correntes se tornam mais intensas.
Registros geológicos indicam que essas correntes profundas passam por ciclos de maior intensidade a cada cerca de 2,4 milhões de anos. Esses períodos são conhecidos como grandes ciclos astronômicos. Durante essas fases, a movimentação da água no fundo do oceano aumenta significativamente.
Quando isso acontece, formam-se fortes redemoinhos nas regiões abissais. Esses vórtices podem remexer os sedimentos acumulados ao longo de milhões de anos. Como resultado, surgem lacunas no registro geológico, que funcionam como pistas sobre essas mudanças no passado.
Mapa topográfico da circulação esquemática das correntes superficiais (curvas sólidas) e profundas (curvas tracejadas) do Oceano Atlântico, que formam uma porção da Circulação Meridional do Atlântico (AMOC). Estudo aponta que a gravidade de Marte pode exercer influência sobre essas correntes marítimas da Terra – Crédito: Wikimedia Commons (CC BY 3.0)
Para investigar esse fenômeno, pesquisadores da Universidade de Sydney, na Austrália, utilizaram dados de satélite. Eles mapearam a distribuição de sedimentos no fundo do oceano ao longo de cerca de 65 milhões de anos. A análise revelou interrupções no acúmulo desses materiais.
Essas falhas indicam momentos em que as correntes profundas estavam mais fortes e impediram a deposição contínua de sedimentos. Segundo os cientistas, isso está ligado à interação gravitacional entre os planetas, que altera a excentricidade da órbita terrestre, ou seja, o quanto ela se afasta de um formato circular.
A pesquisa sugere que a ressonância entre Terra e Marte provoca mudanças periódicas nessa excentricidade. Em certos momentos, a Terra se aproxima ligeiramente do Sol. Isso aumenta a quantidade de energia solar recebida, elevando as temperaturas globais.
Depois, o planeta retorna gradualmente à sua posição anterior, completando um ciclo que se repete a cada 2,4 milhões de anos. De acordo com os autores, períodos mais quentes estão associados a uma circulação oceânica mais intensa, especialmente nas profundezas.
Leia mais:
Energia em Marte pode ser gerada com recursos do próprio planeta
Marte: novo motor da NASA pode acelerar viagens e economizar até 90% de combustível
Marte em 360 graus: imagens da NASA contam a história da água no planeta
Ciclo não tem ligação com aquecimento global
Apesar dessas descobertas, os cientistas fazem um alerta importante. Esse ciclo natural ocorre em uma escala de tempo extremamente longa e não tem relação com o aquecimento global atual. As mudanças climáticas observadas hoje são rápidas e causadas principalmente por atividades humanas.
Outro ponto abordado no estudo envolve a circulação oceânica em grande escala, como a chamada “esteira rolante” do Atlântico. Esse sistema transporta calor das regiões tropicais para o Hemisfério Norte e ajuda a regular o clima global.
Especialistas monitoram esse sistema porque há indícios de que ele pode enfraquecer nas próximas décadas. Ainda assim, o estudo destaca que existem outros mecanismos que mantêm a mistura das águas profundas, como os redemoinhos oceânicos.
Esses movimentos menores podem continuar distribuindo calor e oxigênio, mesmo que grandes correntes diminuam. Isso ajuda a evitar que o oceano profundo fique estagnado, mantendo seu papel essencial no equilíbrio climático do planeta.
A pesquisa também muda a forma como entendemos o fundo do oceano. Em vez de um ambiente parado e silencioso, ele é visto como um sistema dinâmico, influenciado por processos que acontecem até mesmo fora da Terra.
A interação gravitacional com Marte, mesmo distante, deixa marcas no fundo do mar ao longo de milhões de anos. Em períodos de maior atividade, correntes se intensificam, redemoinhos se formam e sedimentos são deslocados.
Embora essa conexão entre planetas e oceanos pareça surpreendente, ela não altera a realidade atual. O aquecimento global em curso é resultado direto das ações humanas, em um intervalo de tempo muito mais curto.
O post Gravidade de Marte influencia órbita, clima e oceanos da Terra apareceu primeiro em Olhar Digital.





