No alto da Cordilheira dos Andes, uma das regiões mais privilegiadas do planeta para observação astronômica, um radiotelescópio chinês gigantesco segue parado, desmontado e sem operação. O equipamento, instalado no observatório Cesco, na província argentina de San Juan, virou peça central de uma disputa geopolítica entre Estados Unidos e China que agora se estende ao espaço e à ciência na América do Sul.
O projeto foi desenvolvido em uma parceria entre a Universidade Nacional de San Juan e o Observatório Astronômico Nacional da China, e previa a construção do maior radiotelescópio da América do Sul. No entanto, após pressões diplomáticas americanas e problemas envolvendo a renovação do acordo bilateral, a iniciativa acabou interrompida.
Segundo autoridades americanas, o temor é que estruturas científicas chinesas possam ser usadas para finalidades militares, incluindo rastreamento de satélites e comunicação espacial estratégica. A campanha de pressão teria começado ainda no governo Biden e continuado sob a administração Trump.
As tensões revelam como o avanço chinês na América Latina passou a ser tratado pelos EUA como questão de segurança nacional. O governo Trump tem defendido uma releitura da Doutrina Monroe, buscando conter a expansão da influência chinesa no Hemisfério Ocidental.
No caso argentino, peças essenciais do telescópio ficaram retidas na alfândega por cerca de nove meses. Um documento do gabinete do governo argentino apontou “irregularidades processuais” na renovação do acordo com a China como motivo para a paralisação. O governo evitou comentar se houve influência direta da diplomacia americana na decisão.
Enquanto isso, cientistas argentinos que falaram ao The New York Times assistem ao impasse com frustração.
“Estamos presos em um buraco negro político”, afirmou Ana Maria Pacheco, astrônoma de 61 anos. Ela explica que o radiotelescópio ajudaria a reduzir a escassez desse tipo de equipamento no Hemisfério Sul, considerado menos equipado do que o Hemisfério Norte para pesquisas astronômicas.
Radiotelescópio seria o maior da América do Sul
O projeto vinha sendo desenvolvido havia cerca de 15 anos e envolvia um investimento de US$ 32 milhões. A estrutura possui uma antena parabólica de 40 metros de diâmetro, capaz de captar ondas de rádio vindas do espaço profundo para estudar estrelas, galáxias e outros fenômenos cósmicos.
Em 2023, cerca de 100 caminhões transportaram as enormes peças metálicas do telescópio pelas estradas montanhosas até o observatório. Técnicos chineses chegaram a se instalar na pequena cidade de Barreal, próxima ao local da obra.
Hoje, parte da estrutura permanece abandonada. Segundo relatos colhidos pelo NYT, pauzinhos, latas de molho de ostra e embalagens de chá verde ainda podem ser encontrados no interior da instalação, deixados pelos trabalhadores chineses. Uma placa escrita em chinês orienta sobre como agir em caso de encontros com pumas na região.
O caso de San Juan não é isolado. No Chile, outro projeto chinês para instalação de um observatório astronômico no Deserto do Atacama também foi interrompido após pressão americana. O plano previa a construção de 100 telescópios para monitoramento de asteroides e explosões extragalácticas.
“Era muito importante para o governo dos EUA que o projeto não fosse autorizado”, declarou Bernadette Meehan, ex-embaixadora americana no Chile durante o governo Biden. Segundo ela, fortalecer relações com países como Chile e Argentina é fundamental para “se proteger contra os esforços da China em busca de maior influência estratégica”.
EUA x China
A China rejeita as acusações. Em comunicado divulgado pela embaixada chinesa em Buenos Aires, Pequim afirmou que os Estados Unidos estariam “buscando uma desculpa para conter e reprimir a China”. O texto classificou a postura americana como “ridícula e lamentável”.
O governo chinês argumenta que os projetos têm finalidade exclusivamente científica e que os EUA também mantêm forte presença astronômica na América do Sul, incluindo instalações da NASA usadas para rastreamento espacial.
A desconfiança americana em relação à presença chinesa na Argentina já vinha crescendo desde 2015, quando militares chineses construíram uma estação espacial na província de Neuquén, na Patagônia. O acordo concedeu à China o uso gratuito da área por 50 anos.
Para críticos em Washington, a base se tornou símbolo do avanço estratégico chinês na região.
Apesar do alinhamento político entre Donald Trump e o presidente argentino Javier Milei, a relação da Argentina com a China segue complexa. Durante a campanha presidencial, Milei adotou um discurso hostil a Pequim, mas suavizou o tom após assumir o cargo, diante da forte dependência econômica argentina do comércio e dos investimentos chineses.
Em paralelo à pressão diplomática, autoridades americanas também intensificaram ações técnicas e acadêmicas. Cientistas argentinos ligados ao projeto chegaram a ser convidados para treinamentos no laboratório Sandia, nos Estados Unidos, voltados para “preocupações com o uso duplo em instalações de pesquisa espacial civil”.
Marcelo Segura, coordenador argentino do radiotelescópio, afirmou que tentou convencer autoridades americanas de que o projeto teria apenas uso civil. “Não funcionou”, disse.
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