IA está dando mais trabalho para tribunal trabalhista na Austrália

A Fair Work Commission (FWC), tribunal de relações trabalhistas da Austrália, anunciou, nesta sexta-feira (29), uma revisão de seus processos organizacionais para lidar com uma sobrecarga operacional. A reformulação foi motivada pela combinação entre restrições no orçamento, desafios de recursos, alta no número de cidadãos que representam a si mesmos e a proliferação de ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa, que facilitaram o envio de petições.

O órgão estima um aumento de 70% em sua carga de trabalho num intervalo de três anos. Dados oficiais indicam que o tribunal recebeu 44.039 registros de casos entre julho de 2025 e abril de 2026, volume que praticamente se iguala ao recorde de 44.075 solicitações contabilizadas em todo o ano fiscal anterior de 2024-2025.

Órgãos avaliam uso de assistentes virtuais para triagem e alertam sobre erros em petições automatizadas

A alta na demanda sobrecarrega a estrutura da comissão e reflete uma mudança no perfil dos usuários, que recorrem à tecnologia para redigir petições mesmo sem experiência prévia em relações trabalhistas. 

O impacto se estende a outras esferas administrativas do país, como a Autoridade Australiana de Reclamações Financeiras (AFCA), que apontou lentidão nos processos devido ao excesso de dados genéricos gerados por softwares. 

“No entanto, as reclamações geradas por IA por vezes podem incluir informações irrelevantes, imprecisas ou genéricas, ou podem utilizar argumentos jurídicos que não se aplicam à lei australiana”, afirmou um porta-voz da AFCA em nota enviada à Bloomberg.

Alta no número de cidadãos que representam a si mesmos e a proliferação de ferramentas de IA, que facilitaram o envio de petições, estão entre fatores que sobrecarregaram tribunal australiano – Imagem: Pedro Spadoni via DALL-E/Olhar Digital

Para gerenciar o fluxo de dados, o tribunal planeja adotar recursos tecnológicos de suporte, sem substituir as decisões dos magistrados. Entre as medidas, a comissão avalia a viabilidade de implantar um agente de voz baseado em IA para fazer a triagem inicial das chamadas telefônicas de sua linha de ajuda. 

Outra ferramenta em desenvolvimento é o Agreement Checklist Assistant, sistema de IA generativa desenhado para apoiar a equipe de triagem na identificação de inconformidades e prazos em acordos coletivos antes que o processo seja distribuído a um membro do tribunal. O julgamento final continua exclusivamente humano.

Além das ferramentas digitais, a estratégia do órgão prioriza reformas operacionais e canais de atendimento direto. O tribunal estendeu até setembro de 2026 o projeto piloto Early Dispute Resolution (EDR), no qual oficiais seniores contatam as partes envolvidas num prazo de 14 dias para tentar resolver disputas de forma amigável e antecipada.

Paralelamente, o portal online MyFWC passará a concentrar obrigatoriamente o início de ações de demissão injusta e proteção geral, visando eliminar o uso de formulários em papel. De forma separada, a exigência de envio de documentos originais em formato digital legível por máquinas (como arquivos em formato DOCX ou PDFs não escaneados) será restrita aos pedidos de homologação de acordos coletivos, medida necessária para viabilizar a triagem automatizada do assistente de IA.

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