Meu filho é inteligente demais ou apenas diferente? O que toda família precisa saber sobre altas habilidades

“Mãe, por que o céu não acaba?”

Há crianças que, antes mesmo de aprenderem a escrever, fazem perguntas sobre o universo, a morte, o tempo ou a origem da vida. Outras aprendem a ler sozinhas, demonstram memória impressionante, criam soluções inusitadas para problemas do dia a dia ou mergulham intensamente em um único assunto durante meses.

Ainda assim, muitas delas passam despercebidas.

No dia 10 de agosto, quando celebramos o Dia Internacional das Altas Habilidades/Superdotação, gostaria de fazer um convite: deixar de lado a imagem do “pequeno gênio” e enxergar essas crianças como elas realmente são — indivíduos com potencial elevado, mas que também precisam de acolhimento, compreensão e suporte.

Um dos maiores equívocos sobre as altas habilidades é acreditar que elas significam apenas inteligência acima da média. Na verdade, a legislação brasileira reconhece que pessoas com Altas Habilidades/Superdotação podem apresentar desempenho excepcional em diferentes áreas, como capacidade intelectual, criatividade, liderança, artes, psicomotricidade ou áreas acadêmicas específicas. Nem todas terão notas perfeitas. Nem todas serão “as melhores da turma”. E justamente por isso tantas permanecem invisíveis.

Na clínica, essa invisibilidade aparece com frequência.

Recebo crianças que chegam com queixas de ansiedade, baixa autoestima, desmotivação escolar ou dificuldade para fazer amizades. Algumas já passaram por diversos profissionais sem que ninguém tivesse percebido que aquele comportamento considerado “exagerado” podia, na verdade, refletir uma forma diferente de pensar e aprender.

Uma criança com altas habilidades pode terminar rapidamente todas as tarefas da sala e, por falta de desafio, começar a conversar, levantar da cadeira ou perder completamente o interesse pelas aulas. Pode fazer perguntas difíceis, contestar explicações simplistas e demonstrar enorme senso de justiça. Também pode ser extremamente sensível às críticas, ao sofrimento dos outros e às próprias frustrações.

Nada disso significa falta de educação.

Muitas vezes, significa apenas que aquela criança precisa ser estimulada de maneira diferente.

Infelizmente, ainda estamos longe de identificar quem realmente precisa desse olhar. Estudos que analisaram os dados do Censo Escolar mostram que, embora o número de estudantes identificados com altas habilidades tenha crescido na última década, ele continua muito inferior ao esperado para uma condição cuja prevalência estimada é de cerca de 3% a 5% da população escolar. Em outras palavras: milhares de crianças brasileiras seguem sem reconhecimento e sem acesso aos recursos educacionais de que necessitam.

Quando isso acontece, o impacto vai muito além do desempenho acadêmico.

É comum que essas crianças desenvolvam a sensação de não pertencimento. Algumas escondem suas capacidades para serem aceitas pelos colegas. Outras passam a acreditar que há algo errado com elas porque ninguém parece compreender sua intensidade emocional, sua curiosidade ou seu ritmo de aprendizagem.

Existe ainda um tema pouco conhecido pelas famílias: a dupla excepcionalidade.

Ela ocorre quando uma pessoa apresenta altas habilidades ao mesmo tempo em que convive com outra condição do neurodesenvolvimento, como autismo, TDAH ou dislexia. Nesses casos, um quadro pode mascarar o outro. A criança pode parecer apenas distraída, apenas desorganizada ou apenas tímida, quando, na realidade, existe um potencial extraordinário que permanece escondido. Essa complexidade reforça a importância de uma avaliação neuropsicológica cuidadosa e individualizada.

Também precisamos falar sobre as meninas.

Historicamente, elas são menos encaminhadas para avaliação porque costumam desenvolver estratégias para se adaptar ao ambiente escolar. Muitas evitam demonstrar suas capacidades para não parecerem “diferentes”, esforçam-se para corresponder às expectativas dos adultos e acabam sendo vistas apenas como alunas responsáveis. O talento permanece silencioso.

Por isso, reconhecer as altas habilidades não significa criar rótulos ou estabelecer privilégios.

Significa garantir que cada criança tenha oportunidades compatíveis com sua forma de aprender.

Assim como oferecemos apoio a quem enfrenta dificuldades, também precisamos oferecer desafios a quem aprende de maneira excepcional. Desenvolvimento saudável não acontece apenas quando reduzimos limitações. Ele também depende de nutrirmos talentos.

Neste 10 de agosto, mais do que celebrar pessoas superdotadas, precisamos ampliar nosso olhar sobre elas.

Porque uma criança que faz perguntas demais, que aprende rápido demais ou que enxerga o mundo de forma diferente não precisa ouvir que é “difícil”, “esquisita” ou “mandona”. Ela precisa encontrar adultos capazes de transformar curiosidade em conhecimento, intensidade em equilíbrio e potencial em oportunidade.

No fim das contas, reconhecer uma alta habilidade não é apenas enxergar uma inteligência acima da média.

É permitir que uma criança seja compreendida por inteiro e essa talvez seja a forma mais bonita de inclusão.