A partir de 31 de agosto, um lugarejo no interior de um país pouco conhecido pelo resto do mundo começa a sediar mais uma edição de um tipo bem diferente de “olimpíada”: pela quarta vez em seis edições, o Quirguistão receberá competidores de dezenas de países para os Jogos Mundiais Nômades, um evento esportivo que celebra modalidades herdadas dos povos ancestrais das estepes euroasiáticas, dos mongóis aos hunos.
Criados em 2014 no próprio Quirguistão, os jogos são um sucesso absoluto no seu país de origem, que desta vez promete até mesmo inaugurar um novo estádio para celebrar a cerimônia de abertura. E, embora outras nações compitam e já tenham também sediado as disputas, são mesmo os quirguizes quem dominam a maior parte dos eventos.
Conheça um pouco mais sobre essa curiosa tradição – e o que esperar da edição que já se avizinha no calendário.
A história dos Jogos Mundiais Nômades (e que jogos são estes?)
Esquecido no meio da Ásia Central, o Quirguistão passou a maior parte de sua história sob o controle de outros impérios. Desde os mongóis no século 13, foram poucas as vezes que essa região do mundo realmente apareceu como um território independente nos mapas.
Sem instituições sólidas duradouras e dominado frequentemente por nações que eram, elas próprias, conhecidas pelo nomadismo, o Quirguistão manteve essa raiz viva mesmo em seu último período sem autonomia, quando fez parte de um império mais centralizado: conquistado pelos russos em 1876, o território seguiu sob influência de Moscou quando a União Soviética surgiu, só se tornando o país atual após o colapso do governo socialista, em 1991.
Yurt na Vila Étnica, a “vila olímpica” dos Jogos Nômades, durante a edição de 2018, a última disputada no QuirguistãoHelen Owl/Wikimedia Commons
Tudo isso é bem anterior à criação dos Jogos Mundiais Nômades, mas o preâmbulo se faz necessário para entender como a ideia começou: Askhat Akibaev, uma figura envolvida há anos no esporte do país, foi quem se empenhou em criar uma espécie de “festival” para celebrar e difundir a cultura desse país pouco celebrado fora de suas próprias fronteiras. E, decidido a mostrar como o Quirguistão se integrava com o que havia ao redor, propôs expandir o escopo do evento para algo que fazia sentido para toda a vizinhança: por meio de competições de modalidades típicas do interior da Ásia Central.
O resultado foi uma “olimpíada” com esportes particularmente cultuados nos -istões, boa parte deles disputados a galope. Cazaquistão, Turcomenistão e Uzbequistão são algumas das potências nos Jogos Mundiais Nômades, além, é claro, dos próprios quirguizes, que lideram os quadros de medalhas e são os mais entusiasmados anfitriões: com exceção das edições de 2022, na Turquia, e de 2024, em solo cazaque, as demais foram sempre no Quirguistão mesmo.
Esportes a cavalo são os mais famosos dos Jogos, mas habilidades de falcoaria também são celebradas em outras modalidades da disputaSave the Dream/Wikimedia Commons
As modalidades dos jogos incluem esportes mais óbvios para quem vê de fora, como corridas a cavalo ou tiro com arco montado, mas também opções inusitadas como o er enish, uma disputa em que o objetivo é derrubar o adversário da sua montaria usando as próprias mãos, e aquele que mais desperta curiosidade em estrangeiros: o kok-boru, em que dois times (a cavalo, é claro) disputam a posse de uma carcaça de cabra que deve ser atirada dentro de um “gol”.
Existem ainda disputas que não envolvem os amigos equestres, incluindo jogos de mesa e exibições de destreza na falcoaria, mas já deu para ver a preferência – nada surpreendente – que os descendentes dos nômades têm por suas competições sobre o animal que os levava rapidamente de um lado a outro do continente.
O que esperar da edição 2026
Renderização mostra a Azattyk Arena, também chamada de Bishkek Arena, prevista para ser inaugurada na abertura dos Jogos./Divulgação
Após oito anos sem acontecer no Quirguistão, os Jogos Mundiais Nômades voltam para casa em grande estilo: a cerimônia de abertura está prevista para a Azattyk Arena, na capital Bishkek, um novíssimo estádio para 51 mil pessoas que deve ser inaugurado com a própria festividade.
Erguida a um custo de US$ 60 milhões para ser a maior estrutura poliesportiva da Ásia Central, a nova arena, porém, não será estrela das disputas em si: depois da abertura, já no dia seguinte os competidores fazem as malas e, ao melhor estilo nômade, partem 250 km rumo ao interior do país, onde os jogos efetivamente acontecem.
Às margens de um lago, cidade-sede de Cholpon-Ata é um conhecido destino de resorts à beira d’água em um país que não tem marElaman Toktoshev/Wikimedia Commons
Como nas vezes anteriores em que a competição ocorreu no país, o grosso das disputas esportivas está marcado para Cholpon-Ata, uma cidade de pouco mais de 12 mil habitantes às margens do lago Issyk-Kul.
Uma área cênica e conhecida entre os quirguizes como um destino de resorts à beira d’água em um país que não tem saída para o mar, ela divide as atenções com Kyrchyn, a cerca de uma hora de distância, onde acontecem eventos culturais vinculados aos Jogos Mundiais Nômades. Serviços especiais de ônibus costumam percorrer o caminho na semana das disputas, que se estende até 6 de setembro.
A lista detalhada de participantes para a edição 2026 ainda não foi anunciada oficialmente, mas a expectativa dos organizadores é superar as marcas dos Jogos de 2024, em Astana, no Cazaquistão, quando mais de 3 mil atletas participaram da competição. Segundo o site oficial dos Jogos Mundiais Nômades, ao menos 90 países vão marcar presença desta vez.
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