Uma criança inquieta, distraída ou impulsiva pode levantar a suspeita de TDAH, mas esses comportamentos, sozinhos, não fecham diagnóstico. Sono ruim, cansaço, sobrecarga, rotina desorganizada e excesso de telas também afetam atenção e autorregulação — e essa semelhança costuma confundir muitas famílias.
A pesquisa Adolescência Sem Filtro, divulgada pelo Instituto Alana, apontou que quase 80% dos adolescentes brasileiros de 13 a 17 anos passam mais de três horas por dia conectados; 15% ultrapassam oito horas. Cerca de 40% relatam preocupação com dependência de celular e internet, além de reflexos no sono e nos estudos.
Ao mesmo tempo, uma revisão publicada no Journal of Psychopharmacology identificou crescimento global nos diagnósticos e nas prescrições relacionados ao TDAH. Isso não significa necessariamente que mais pessoas estejam desenvolvendo o transtorno: o aumento também pode refletir maior reconhecimento de casos antes não identificados.
TDAH em crianças ou excesso de telas: como diferenciar?
Para a psiquiatra Fabricia Signorelli, o ponto central está no contexto. “Não podemos transformar qualquer comportamento infantil em diagnóstico. O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento e precisa ser avaliado considerando a persistência dos sintomas, os prejuízos provocados e a manifestação em diferentes ambientes”, explica.
“Uma criança que dorme mal, está sobrecarregada, passa muitas horas diante de estímulos digitais ou enfrenta uma rotina pouco estruturada pode apresentar dificuldades de atenção e comportamento. Isso não significa automaticamente TDAH”, afirma a psicóloga e neuropsicóloga Thaís Barbisan.
Observar quando o comportamento começou e em quais situações ele aparece ajuda a separar uma mudança pontual de um padrão persistente. Noites mal dormidas, sobrecarga e muitas horas diante das telas, por exemplo, podem piorar temporariamente o foco.
Especialistas sugerem olhar menos para um comportamento isolado e mais para o conjunto – Crédito: Freepik
Quais sinais de TDAH devem chamar atenção?
As especialistas sugerem olhar menos para um comportamento isolado e mais para o conjunto:
Persistência: dificuldades que se mantêm ao longo do tempo merecem mais atenção do que alterações recentes.
Mais de um ambiente: os comportamentos aparecem em casa, na escola e em outros espaços.
Prejuízo real: desatenção, impulsividade ou desorganização interferem no aprendizado, nas relações ou na rotina.
Organização e planejamento: esquecimentos frequentes e dificuldade para concluir tarefas também podem integrar os sinais de TDAH.
Sono e estímulos: avaliar descanso, rotina e excesso de telas ajuda a identificar fatores que podem imitar ou intensificar sintomas.
Também vale abandonar o estereótipo de que toda criança com TDAH “não para”. “Nem toda criança com TDAH é hiperativa. Algumas apresentam principalmente dificuldades de atenção, organização, planejamento e funções executivas”, explica Thaís.
Quando procurar avaliação profissional para TDAH?
Se as dificuldades persistirem, provocarem prejuízos importantes e aparecerem em diferentes ambientes, a família deve buscar avaliação especializada. O diagnóstico exige análise do desenvolvimento, da rotina, da escola, do sono e de outros fatores que podem explicar o comportamento.
Testes de internet, vídeos curtos e listas de sintomas não substituem essa investigação. “O aumento da informação é positivo, mas também exige mais responsabilidade. Identificar um comportamento é diferente de diagnosticar um transtorno”, conclui Fabricia.
Para as famílias, o caminho é observar sem antecipar rótulos. Mudanças no sono, na carga de atividades e na exposição digital merecem atenção, mas sintomas persistentes e com impacto na vida da criança pedem uma avaliação cuidadosa.
Resumo: O TDAH envolve sintomas persistentes que causam prejuízos e aparecem em diferentes ambientes. Sono ruim, sobrecarga e excesso de estímulos digitais também podem afetar atenção e comportamento. Nem toda criança com o transtorno apresenta hiperatividade. A avaliação profissional considera o desenvolvimento e a rotina antes de estabelecer o diagnóstico.
Leia também:





