Não é birra: quando a ansiedade da criança aparece no comportamento

“Meu filho está impossível.” “Ela chora por qualquer coisa.” “Ele não quer mais ir para a escola.” “Ela precisa perguntar mil vezes se está tudo bem.”

Para muitos pais, essas frases fazem parte da rotina. O problema é que, por trás de alguns desses comportamentos, pode existir algo que a criança ainda não consegue nomear: a ansiedade.

Sentir medo, preocupação ou insegurança faz parte do desenvolvimento infantil. Crianças podem ter medo de ficar longe dos pais, de dormir sozinhas, de situações novas ou de cometer erros. O que merece atenção é quando esses sentimentos se tornam persistentes, intensos e começam a interferir na rotina, na escola, nas relações ou na autonomia.

A Organização Mundial da Saúde considera os transtornos de ansiedade os transtornos emocionais mais prevalentes entre adolescentes e estima que eles afetem 4,1% dos jovens de 10 a 14 anos e 5,3% daqueles entre 15 e 19 anos. A entidade também destaca que ansiedade e depressão podem comprometer a frequência escolar e o desempenho acadêmico. 

Mas existe um desafio anterior ao diagnóstico: reconhecer que a criança pode estar sofrendo.

Adultos conseguem dizer “estou preocupado”, “estou com medo” ou “estou ansioso”. Crianças nem sempre têm esse repertório emocional. Muitas vezes, o sofrimento aparece primeiro no comportamento.

A ansiedade pode se manifestar como irritabilidade, crises de choro, dificuldade para dormir, necessidade constante de confirmação, medo excessivo de errar, dificuldade de separação dos pais, recusa escolar ou até sintomas físicos, como dor de barriga, dor de cabeça e náusea. A própria Organização Mundial da Saúde chama atenção para manifestações físicas e comportamentais associadas aos transtornos emocionais na infância e adolescência. 

É por isso que uma criança que parece “desobediente” pode, na verdade, estar tentando escapar de uma situação que considera ameaçadora.

Uma criança que se recusa a fazer uma atividade pode estar com medo de errar. Aquela que não quer ir à escola pode estar enfrentando uma dificuldade de separação, problemas de relacionamento ou uma situação que ainda não conseguiu contar aos adultos. A que precisa perguntar repetidamente “você tem certeza de que vai voltar?” pode estar buscando uma segurança que não consegue produzir sozinha.

Isso não significa que todo comportamento difícil seja ansiedade.

Esse cuidado é fundamental. A infância também envolve frustrações, mudanças de humor, oposição e momentos de insegurança. Nem toda birra é um transtorno, assim como nem toda preocupação precisa de diagnóstico.

O que devemos observar é o padrão.

A mudança em relação ao comportamento habitual da criança, a frequência dos episódios, a intensidade do sofrimento e o impacto sobre a vida cotidiana são pistas importantes. Uma criança que antes ia tranquilamente à escola e passa a apresentar crises frequentes para não ir merece ser ouvida. Um adolescente que começa a evitar amigos, atividades ou situações que antes faziam parte de sua rotina também merece atenção.

Outro sinal importante é quando a criança passa a organizar a própria vida para não sentir ansiedade.

Ela deixa de participar de uma festa porque tem medo de passar vergonha. Não responde a perguntas na escola porque teme errar. Evita dormir na casa de amigos. Não quer experimentar atividades novas. Precisa da presença constante dos pais para realizar tarefas que já conseguiria fazer sozinha.

A evitação pode aliviar a ansiedade naquele momento, mas também pode fazer com que o medo ganhe cada vez mais espaço.

Por isso, a resposta dos adultos precisa ir além do “não tenha medo”.

Para uma criança ansiosa, dizer que não há motivo para preocupação nem sempre resolve. O medo é real para quem o sente, mesmo quando a situação não representa um perigo objetivo.

O primeiro passo é acolher sem reforçar a evitação. Isso significa reconhecer o sentimento “eu sei que isso está difícil para você” e, ao mesmo tempo, ajudar a criança a desenvolver recursos para enfrentar gradualmente aquilo que provoca medo.

Também é importante evitar transformar a criança em seu próprio diagnóstico. Ela não é “a criança ansiosa”. Ela é uma criança que, naquele momento, pode estar enfrentando sintomas de ansiedade e precisa de apoio.

A identificação precoce faz diferença. Uma revisão publicada no Jornal de Pediatria em 2026 reforça que a avaliação precisa considerar a idade e o desenvolvimento da criança, justamente para diferenciar respostas emocionais esperadas de manifestações que podem indicar um transtorno. O trabalho também destaca a importância da identificação precoce e das intervenções psicológicas. 

Quando existe sofrimento persistente ou prejuízo significativo na rotina, é importante procurar avaliação profissional. Psicólogos, neuropsicólogos, pediatras e outros profissionais especializados podem contribuir para compreender o que está acontecendo e definir os próximos passos.

E talvez uma das maiores mudanças que precisamos fazer seja trocar a pergunta “como faço meu filho parar com esse comportamento?” por outra:

“O que esse comportamento está tentando me dizer?”

Nem sempre uma criança consegue dizer “estou ansiosa”.

Às vezes, ela diz isso chorando.

Às vezes, recusando a escola.

Às vezes, ficando irritada.

Às vezes, perguntando pela décima vez se está tudo bem.

Cabe aos adultos aprender a escutar essas diferentes formas de comunicação.

Porque reconhecer a ansiedade infantil não significa transformar a infância em doença. Significa não ignorar um sofrimento que, quando identificado e cuidado, pode ser tratado.

E, muitas vezes, o primeiro passo para ajudar uma criança é simplesmente acreditar que, por trás daquele comportamento difícil, existe alguma coisa que ela ainda não conseguiu explicar.