Durante muitos anos, aprendemos a procurar um médico quando alguma coisa está errada. Sentimos dor, percebemos um sangramento, emagrecemos sem explicação ou notamos alguma mudança no funcionamento do organismo e, então, buscamos ajuda.
Quando falamos em câncer colorretal, porém, esperar o corpo avisar pode significar perder uma oportunidade importante de diagnóstico precoce.
Isso acontece porque o câncer de intestino pode se desenvolver silenciosamente. Uma pessoa pode estar trabalhando, se alimentando normalmente, evacuando sem grandes alterações e sem sentir dor, enquanto uma lesão começa a crescer no intestino.
É justamente por isso que considero tão importante a recente inclusão do Teste Imunoquímico Fecal, conhecido como FIT, no Sistema Único de Saúde (SUS) para o rastreamento do câncer colorretal.
A proposta é oferecer o exame a homens e mulheres entre 50 e 75 anos que não apresentam sintomas, com realização a cada dois anos.
E há uma palavra nessa recomendação que merece atenção: assintomáticos.
O objetivo do rastreamento é justamente procurar uma possível alteração antes que ela comece a provocar sintomas.
Um exame simples pode ser a primeira etapa da investigação
O FIT é realizado a partir de uma pequena amostra de fezes e procura quantidades de sangue humano que podem ser tão pequenas que não conseguimos enxergá-las.
É o chamado sangue oculto nas fezes.
Algumas lesões do intestino podem provocar pequenos sangramentos. Por isso, encontrar sangue microscópico pode funcionar como um sinal de que aquela pessoa precisa avançar na investigação.
Uma das grandes vantagens do exame é a simplicidade. Não exige o mesmo preparo intestinal necessário para uma colonoscopia e pode ser realizado a partir da coleta de uma amostra.
Isso faz diferença quando pensamos em saúde pública.
Para que um programa de rastreamento funcione, não basta termos um exame eficiente. Precisamos conseguir alcançar milhões de pessoas que aparentemente estão saudáveis e que provavelmente não procurariam espontaneamente um serviço médico para realizar uma colonoscopia.
FIT positivo não significa câncer
Esse é um ponto que precisa ficar muito claro.
Encontrar sangue oculto nas fezes não significa que aquela pessoa tenha câncer.
Existem diferentes razões para um sangramento gastrointestinal. O FIT não consegue mostrar onde está o problema nem determinar sozinho sua causa.
Por isso, quando o resultado é positivo, é necessário avançar na investigação, geralmente com a colonoscopia.
É nesse exame que conseguimos visualizar diretamente o interior do intestino grosso, identificar alterações, realizar biópsias quando necessário e, em determinadas situações, retirar pólipos.
Portanto, não devemos enxergar FIT e colonoscopia como exames concorrentes.
Eles podem fazer parte de etapas diferentes de uma mesma estratégia.
O FIT ajuda a selecionar, dentro de uma população assintomática, quem precisa de uma investigação adicional. A colonoscopia permite olhar diretamente para o intestino e entender o que está acontecendo.
O novo teste não significa que todo mundo deva esperar até os 50 anos
Também precisamos ter cuidado para que uma recomendação populacional não seja interpretada como uma regra individual.
O rastreamento oferecido pelo SUS é direcionado a uma determinada faixa etária e a pessoas sem sintomas. Isso não significa que alguém com 35, 40 ou 45 anos que apresente sinais de alerta deva esperar completar 50 anos para procurar um médico.
Da mesma forma, uma pessoa entre 50 e 75 anos que já apresenta sintomas não deveria simplesmente aguardar seu próximo FIT.
Sangue visível nas fezes, mudança persistente do hábito intestinal, anemia sem causa esclarecida, emagrecimento sem explicação, dor abdominal recorrente ou sensação persistente de evacuação incompleta precisam ser avaliados.
Nesses casos, já não estamos falando apenas de rastreamento de uma pessoa saudável. Estamos investigando sinais que podem ter diferentes causas e que precisam ser esclarecidos.
Além disso, histórico familiar e antecedentes pessoais podem modificar a estratégia de acompanhamento.
É por isso que medicina preventiva não pode ser resumida apenas à idade escrita no documento.
Por que descobrir antes faz tanta diferença?
Muitos cânceres colorretais se desenvolvem a partir de pólipos, alterações que surgem na parede interna do intestino e que, ao longo do tempo, podem sofrer transformações.
Nem todo pólipo se transformará em câncer. Mas identificar e retirar determinadas lesões antes que isso aconteça é uma das grandes possibilidades de prevenção que temos nessa área da medicina.
Quando a doença já existe, o diagnóstico precoce também faz diferença.
Quanto mais localizada estiver a lesão, maiores tendem a ser as possibilidades de tratamento. Em fases mais avançadas, quando existem outros órgãos comprometidos, o tratamento se torna mais complexo.
Por isso, uma das ideias que precisamos abandonar é: “Se eu não sinto nada, não preciso investigar.”
Na prevenção do câncer, muitas vezes acontece justamente o contrário. Investigamos porque a pessoa ainda não sente nada.
A colonoscopia continua sendo fundamental
Com a chegada do FIT ao SUS, algumas pessoas podem imaginar que a colonoscopia deixou de ser necessária. Não é isso.
A colonoscopia continua tendo um papel fundamental porque permite visualizar o intestino, identificar lesões, retirar determinados pólipos e coletar material para análise.
O que muda com a incorporação do FIT é a possibilidade de termos uma porta de entrada mais simples para um rastreamento populacional amplo.
Em um país do tamanho do Brasil, isso é especialmente relevante.
Podemos alcançar pessoas que nunca fizeram qualquer investigação preventiva do intestino e identificar aquelas que precisam avançar para uma avaliação mais detalhada.
Não espere o intestino avisar
Como cirurgião do aparelho digestivo, vejo diariamente a diferença que o momento do diagnóstico pode fazer na trajetória de um paciente.
Por isso, considero que a incorporação de um novo método de rastreamento ao SUS traz também uma oportunidade de educação em saúde.
Precisamos falar sobre intestino antes de existir doença.
Precisamos perder o constrangimento de conversar sobre fezes, sangramento e alterações do hábito intestinal.
E, principalmente, precisamos entender a diferença entre rastreamento e investigação de sintomas.
O rastreamento procura uma doença em quem aparentemente está bem. A investigação procura explicar aquilo que o organismo já começou a sinalizar.
Os dois são importantes, mas acontecem em momentos diferentes.
A grande mensagem trazida pelo novo teste é simples: quando falamos em câncer colorretal, não devemos esperar o aparecimento dos sintomas para começar a pensar em prevenção.
Encontrar uma alteração enquanto ela ainda está silenciosa pode mudar completamente a história de um paciente.





