Nem sempre uma dificuldade de comunicação aparece como uma criança que simplesmente “fala pouco”. Ela pode conversar bastante e, ainda assim, ter problemas para organizar uma história, compreender uma orientação ou encontrar palavras para explicar o que aconteceu. Em outros casos, o sinal pode surgir na interação com outras crianças ou durante atividades escolares.
Dados do Ministério da Saúde apontam que até 12% das crianças de até cinco anos apresentam suspeita de atraso no desenvolvimento da comunicação. De maneira geral, estimativas indicam que alterações de fala e linguagem atingem entre 5% e 12% das crianças em idade pré-escolar. Entre as condições que podem estar relacionadas a essas dificuldades estão o Transtorno do Desenvolvimento da Linguagem (TDL), observado em cerca de 7% a 8% das crianças, e a Apraxia de Fala Infantil, presente em aproximadamente 3% dos casos.
Identificar possíveis sinais não significa tentar estabelecer um diagnóstico em casa ou na escola. A avaliação é feita por profissionais habilitados. O papel de pais e educadores é perceber mudanças ou dificuldades persistentes e compartilhar essas informações para que, quando necessário, a criança seja encaminhada para investigação.
A sala de aula mostra como a criança se comunica
A escola permite observar a linguagem em situações que não necessariamente aparecem dentro de casa. Ao longo do dia, a criança precisa entender instruções dadas para todo o grupo, fazer perguntas, participar de conversas, contar acontecimentos e interagir durante brincadeiras.
Essa variedade de situações pode revelar dificuldades que não ficam tão claras no ambiente familiar. Uma criança que é compreendida facilmente pelos pais, por exemplo, pode enfrentar mais problemas quando conversa com pessoas que não estão acostumadas à sua maneira de falar.
Adriana Fiore, fonoaudióloga infantil, explica que a frequência e a persistência desses comportamentos são importantes para avaliar se há motivo para investigação.
“Uma criança que frequentemente precisa observar o que os colegas estão fazendo para compreender uma orientação, por exemplo, pode estar apresentando dificuldade de compreensão. Da mesma forma, uma criança que fala bastante, mas não consegue organizar uma história ou explicar claramente o que aconteceu, pode apresentar uma dificuldade de linguagem que merece atenção”, explica.
Por isso, a observação não deve se concentrar apenas na quantidade de palavras utilizadas. É preciso considerar se a criança consegue compreender o que ouve e transmitir aquilo que deseja comunicar.
Falar muito também pode esconder uma dificuldade
Um dos equívocos na observação do desenvolvimento da linguagem é considerar que falar bastante significa, necessariamente, não haver nenhum problema.
A criança pode ter um vocabulário amplo e conversar frequentemente, mas apresentar dificuldade para organizar as ideias, construir uma narrativa ou responder de maneira adequada ao que foi perguntado.
Nathalia Novaes, psicopedagoga da Senses Montessori School, destaca que a comunicação deve ser observada nas diferentes situações que fazem parte da rotina infantil.
“A linguagem acontece o tempo todo na rotina: nas conversas, nas músicas, nas histórias, nas brincadeiras e nas interações. Mais do que observar quanto a criança fala, precisamos observar como ela está se comunicando”, pontua.
Isso inclui prestar atenção à capacidade de compreender perguntas, seguir instruções, participar de conversas e contar experiências de maneira que outras pessoas consigam acompanhar.
Quais comportamentos merecem atenção na escola?
No ambiente escolar, alguns sinais podem aparecer durante atividades coletivas ou nas relações com os colegas.
Entre os comportamentos que merecem ser observados estão:
dificuldade frequente para acompanhar instruções dadas ao grupo;
necessidade constante de observar os colegas para descobrir o que deve fazer;
frustração durante tentativas de comunicação;
dificuldades relacionadas ao processo de alfabetização.
Um comportamento isolado não é suficiente para indicar que existe um atraso. A frequência, a persistência e o impacto daquela dificuldade na rotina são aspectos que precisam ser considerados.
Também é importante observar se a criança apresenta dificuldade apenas em uma situação específica ou se o comportamento se repete em diferentes atividades e contextos.
E em casa, quais sinais podem aparecer?
A família acompanha a criança em situações diferentes das vivenciadas na escola e, por isso, também pode identificar informações importantes.
Os sinais ‘invisíveis’ de atraso na fala que pais e professores deixam passar. Foto: Magnific
Alguns exemplos são:
dificuldade para responder perguntas sobre acontecimentos do cotidiano;
fala que costuma ser compreendida apenas por pessoas que convivem diariamente com a criança;
vocabulário pouco variado em comparação com o esperado para a idade.
Pais e responsáveis podem prestar atenção, por exemplo, em como a criança conta o que fez na escola, relata uma situação que aconteceu durante uma brincadeira ou responde quando alguém pergunta sobre seu dia.
Mais uma vez, a questão não é comparar a criança constantemente com outras da mesma idade, mas observar se existem dificuldades que se repetem e interferem na comunicação.
Família e escola precisam compartilhar informações
Quando uma dificuldade aparece em mais de um ambiente, o diálogo entre os adultos que acompanham a criança pode ajudar a formar um quadro mais completo.
Nathalia explica que a maneira como essa conversa é conduzida também importa.
“Em vez de dizer apenas ‘ele está atrasado’, o professor pode apresentar exemplos concretos do cotidiano. Quando família e escola compartilham essas observações, fica mais fácil perceber se a dificuldade merece uma investigação mais cuidadosa”, afirma.
Em vez de uma conclusão precipitada, registros concretos ajudam a descrever o comportamento. Dizer que a criança “não acompanha as atividades”, por exemplo, traz menos informação do que explicar que ela frequentemente precisa observar os colegas antes de começar uma tarefa porque não compreendeu a orientação dada ao grupo.
Esse tipo de observação também permite perceber se determinado comportamento acontece todos os dias, apenas em atividades específicas ou em situações que envolvem muitas pessoas.
Observar cedo não significa diagnosticar antes da hora
Perceber uma possível dificuldade de linguagem não significa afirmar que a criança tem um transtorno. O desenvolvimento infantil envolve diferentes ritmos, e a identificação de um sinal precisa ser seguida de avaliação adequada quando houver indicação.
A observação precoce tem outra finalidade: reconhecer que existe uma dificuldade que pode estar interferindo na comunicação e permitir que a família procure orientação profissional.
Também não é necessário esperar que o problema se torne mais evidente para conversar com a escola ou buscar informação. Quando há uma dificuldade persistente, compartilhar o que está sendo observado pode ajudar a definir os próximos passos.
Assim, pais e professores funcionam como pessoas que acompanham de perto o cotidiano da criança. Eles não substituem a avaliação especializada, mas podem fornecer informações importantes sobre como ela compreende, fala e interage em diferentes situações.
Resumo: Dificuldades de fala e linguagem podem aparecer tanto na forma de falar quanto na compreensão, organização das ideias e interação. Pais e professores podem observar comportamentos persistentes em diferentes situações, sem tentar antecipar diagnósticos. O compartilhamento dessas informações ajuda a identificar quando uma avaliação especializada pode ser necessária.
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