Olhar no espelho antes de sair, escolher um hidratante, reparar em uma mancha. A saúde da pele faz parte da rotina, mas nem sempre a gente percebe o quanto a relação com a própria imagem participa desses momentos. Entre uma novidade de skincare e outra, também aparecem expectativas sobre como deveríamos parecer.
No Setembro Amarelo, essa conversa merece espaço para além da bancada do banheiro. Falar de saúde mental envolve observar como nos sentimos, como convivemos com outras pessoas e quando uma preocupação começa a ocupar espaço demais no dia a dia.
Saúde da pele também envolve emoções
Acne, manchas e cicatrizes podem afetar a autoestima, provocar constrangimento e levar algumas pessoas a evitar encontros. Isso não significa que toda alteração na aparência cause um transtorno emocional. O ponto é reconhecer o sofrimento individual, sem diminuir a experiência de quem convive com ele.
Em maio de 2025, a Assembleia Mundial da Saúde reconheceu as doenças de pele como prioridade global. A resolução destaca suas consequências sociais e emocionais, incluindo estigma, discriminação e associação com depressão e ansiedade. O documento também recomenda integrar os serviços dermatológicos às políticas de saúde mental, reforçando a necessidade de olhar para essas dimensões juntas.
A médica Telma Giordani, especialista em saúde da pele e medicina estética, explica que alterações visíveis podem interferir tanto na autoimagem quanto na maneira como alguém acredita que os outros a enxergam. “Não podemos tratar esse impacto como simples vaidade”, afirma.
Na prática, essa perspectiva amplia a conversa na consulta: além de relatar os sintomas, vale contar se a condição atrapalha a convivência, a segurança para sair de casa ou outras atividades. Essas informações ajudam a mostrar o impacto que nem sempre aparece no exame da pele.
Febre das redes sociais provoca aumento de casos de pele sensibilizada – Crédito: FreePik
Quando o cuidado vira cobrança diante do espelho
O autocuidado pode perder seu sentido quando cada poro, linha ou mudança de textura vira um defeito a corrigir. Filtros e imagens editadas alimentam comparações com referências que não representam uma pele real. Envelhecer, por sua vez, não significa descuidar de si.
“Autocuidado não deveria nascer da sensação de que existe alguma coisa errada com você o tempo inteiro”, diz Telma. A observação ajuda a diferenciar o prazer de se cuidar da obrigação de perseguir uma pele sem marcas.
Para a médica, uma rotina possível e segura faz mais sentido do que acompanhar todas as tendências. Higiene, hidratação e proteção solar adequadas podem integrar os cuidados, sem transformar a compra de produtos em medida de dedicação à própria saúde. O orçamento também precisa entrar nessa conta.
O momento de ampliar a rede de apoio
O autocuidado inclui descanso, vínculos sociais e respeito ao próprio cansaço. Um creme pode fazer parte desse repertório, mas não precisa carregar a promessa de melhorar todas as áreas da vida. Tampouco um procedimento estético substitui acompanhamento psicológico ou psiquiátrico.
Segundo Telma, sofrimento intenso, isolamento, prejuízo à rotina e pensamentos excessivos sobre a aparência indicam a necessidade de procurar um profissional de saúde mental. A avaliação permite compreender o que acontece e definir o cuidado adequado, sem presumir um diagnóstico.
“Nenhum produto ou procedimento deve carregar a responsabilidade de resolver um sofrimento que vai muito além da pele”, afirma. Reconhecer esse limite também é uma forma de cuidar de si.
Resumo: Acne, manchas e cicatrizes podem afetar a autoestima e a convivência social. Quando a preocupação com a aparência provoca isolamento ou prejudica a rotina, o cuidado precisa incluir avaliação em saúde mental.
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