O rio Magdalena atravessa a Colômbia de ponta a ponta, assim como atravessa a obra de Gabriel García Márquez. Em seu universo literário, o Caribe colombiano é um território onde o extraordinário se mistura à vida cotidiana, a natureza convive com história e mitologia e os mortos continuam por perto. Entre amores que atravessam décadas e cidades que desaparecem, Gabo levou para as páginas de seus livros as paisagens e as memórias do rio que conheceu nos antigos navios a vapor, durante os anos de estudante.
Nascido no Maciço Colombiano, nos Andes, o Magdalena percorre mais de 1.500 quilômetros pelo país até desaguar no Caribe. Durante séculos, foi uma das principais vias de circulação da Colômbia, ligando o interior à costa. Café, tabaco, metais, correspondência, soldados e passageiros viajavam por suas águas antes que as estradas, no século 20, reorganizassem o tráfego pelo país. Com o avanço do transporte rodoviário, os portos perderam importância e várias cidades acabaram isoladas.
Em 2025, o Magdalena voltou a receber passageiros em cruzeiros fluviais. Foi assim que embarquei no AmaMelodia, da AmaWaterways, para uma viagem de sete noites, entre Barranquilla e Cartagena, atravessando um pedaço da Colômbia que parece ter saído das páginas de Gabo.
AmaMelodia: navegando pelo mundo de GaboAmaMelodia/Divulgação
Minha referência de cruzeiro vinha dos grandes navios marítimos, com vários restaurantes e programação intensa. No Magdalena, a proposta é desacelerar vendo a vida acontecer em terra, enquanto o AmaMelodia desliza em harmonia com as cores da paisagem. O conforto está a bordo, mas o rio nunca fica de fora: ele entra pelas grandes janelas da cabine, acompanha as refeições e segue pelo deck, numa experiência intimista.
Suas águas calmas são a porta de entrada de cenários coloniais que parecem ter parado no tempo. Macondo era ficção, mas pude ver a matéria-prima do realismo mágico se manifestando diante dos meus olhos em muitos momentos.
Ponto de partida em Barranquilla: sete dias entre a realidade e a fantasiaPimpa Brauen/Arquivo pessoal
Barranquilla
O início da viagem foi em Barranquilla, a maior cidade da região, onde Gabo estudou e se casou. Também foi lá que Shakira nasceu. Meu encontro com o AmaMelodia foi na foz do rio, conhecida como “Bocas de Ceniza”, onde a água escura de sedimentos se mistura com o azul do mar.
O navio tem três decks, 32 cabines e recebe até 64 passageiros por viagem. Por dentro, o AmaMelodia tem um jeito bem colombiano, embora seu casco tenha vindo do Vietnã: tecidos coloridos e objetos de decoração de artistas locais estão espalhados pelos ambientes. Não havia corredores intermináveis ou dezenas de ambientes para descobrir. Em pouco tempo já sabíamos onde estavam o lounge, o bar, o restaurante, a academia, as salas de massagem. Ponto alto: o deck superior com espreguiçadeiras, ombrelones e uma pequena piscina onde eu adorava me refrescar do calor implacável.
Refeições memoráveis com vista para o MagdalenaPimpa Brauen/Arquivo pessoal
Minha cabine tinha cerca de 22 metros quadrados e era mais espaçosa do que eu esperava encontrar em um barco fluvial. Mas o que mais gostei estava do lado de fora. As grandes portas de vidro se abriam para uma varanda e deixavam o Magdalena praticamente adentrar. Da cama, eu via o rio passar. Todas as manhãs, antes mesmo de levantar, olhava para fora para descobrir onde estávamos. A paisagem nunca se repetia.
O AmaMelodia foi concebido especificamente para navegar pelo Magdalena. Naquela primeira noite eu ainda não sabia que o maior luxo a bordo seria simplesmente olhar.
Suíte com varanda debruçada sobre o MagdalenaAmaMelodia/Divulgação
Usiacurí
No alto de uma colina aparece a Igreja de Santo Domingo de Guzmán, azul e branca. Abaixo dela, a cidade se espalha em cores. A arte do grafite permeia fachadas, murais, escadarias e até telhados. Foi assim que Usiacurí nos recebeu na primeira parada do AmaMelodia.
Enquanto passeávamos por suas ruas e ouvíamos a história do lugar, cruzamos com crianças de uma escola, que dançavam ao nosso lado. Algumas seguiam a coreografia com uma concentração quase solene. Outras se distraíam olhando para nós e, quando percebiam que haviam perdido os passos, corriam para alcançar o grupo.
Igreja de Santo Domingo de Guzmán: grafite e fé se encontram no topo de UsiacuríPimpa Brauen/Arquivo pessoal
A essência da identidade cultural e econômica de Usiacurí é a tecelagem artesanal da palma de iraca. Antes de virar colar, bolsa, chapéu, luminária, descanso de prato, fruteira ou até mesmo um cesto, a fibra vegetal passa por diferentes etapas de tratamento, tingimento, lavagem e secagem. Passei algum tempo com as artesãs e me impressionou a destreza com que elas tecem. Os tingimentos também eram feitos artesanalmente e eu me encantei com a intensidade das cores que as fibras ganhavam. Escolhi alguns tons e fui trançando até conseguir fechar um pequeno anel, que guardo até hoje com muito carinho.
A cidade guarda a casa onde viveu o poeta Julio Flórez, morto ali em 1923. Tido como o mais popular expoente do romantismo na Colômbia, seus versos eram tão melódicos que muitos foram transformados em canções populares. Transformada em museu, a residência conserva livros, móveis e objetos pessoais.
Palma de iraca: matéria-prima do delicado artesanato de UsiacuríPimpa Brauen/Arquivo pessoal
De volta ao AmaMelodia, começamos a entender a lógica do clima. O calor determina parte importante do ritmo da viagem. Algumas excursões começavam antes das sete da manhã e os itinerários não contavam com grandes caminhadas. Em diferentes momentos, trocávamos o barco por tuk-tuks, coloridos triciclos chamados paolas, ou por embarcações menores.
Nas manhãs livres, eu começava o dia com uma aula de alongamento no deck enquanto a temperatura ainda estava agradável. O corpo despertava e, ao redor, passavam água, árvores, muitas aves e alguma canoa. Gostei tanto que aquele momento virou um pequeno ritual.
O realismo mágico se manifesta
Foi navegando que compreendi que o Magdalena não poderia ser tratado apenas como um caminho entre uma parada e outra. Ele era a própria viagem. A bordo, o clichê filosófico “o que importa não é o destino, mas a jornada” fez todo o sentido. Durante uma tarde no deck, uma nuvem de poeira marrom surgiu na minha frente. Na sequência, surgiu uma boiada, seguindo em fila pela margem. Eram dezenas. Atrás dos animais, vinham vaqueiros de chapéus largos, estalando seus chicotes no ar.
Mais adiante, quatro ou cinco árvores pareciam cobertas de grandes flores brancas. Com a aproximação do barco, o que eu imaginava ser flores de repente começou a se mexer e, pasmem, a levantar voo. Eram garças, mas na minha memória foi realismo mágico. As aves amontoavam-se nos galhos, quase escondendo as árvores.
Garças mimetizadas nos galhos – ou seria o realismo mágico se manifestando?Pimpa Brauen/Arquivo pessoal
Nos canais mais estreitos, navegávamos tão perto da terra que era possível sentir a vibração daqueles pueblos. Eu conseguia escutar a música tocando dentro das casas, ver crianças empinando pipas e cachorros correndo até a água e latindo para o barco. Debaixo das árvores, famílias se protegiam do sol. Consegui ver uma mulher preparando o almoço dentro de casa.
Em determinados trechos, deixávamos o AmaMelodia e seguíamos em embarcações menores. Ao entrar pelos canais, o motor da lancha diminuía e tudo se aproximava.
Embarcações menores aproximam a vida que margeia o rioPimpa Brauen/Arquivo pessoal
Foi numa dessas saídas que encontramos alguns pescadores, protegidos por grandes chapéus de palha. Eles ocupavam quatro canoas de diferentes cores. Alguns fumavam. As mãos grossas juntavam a tarrafa com destreza, ajeitavam as chumbadas e arremessavam a sorte ao rio. No ar, a rede se abria num círculo quase perfeito antes de cair sobre a água. Minutos depois, a tarrafa voltava com alguns peixes. Eles percebiam que eram objetos da nossa curiosidade. Um ou outro sorria timidamente e o balé das redes recomeçava.
Mais adiante, no horizonte, pontinhos pretos e brilhantes apareceram na água. Uma manada de búfalos atravessava o rio em fila, com seus chifres gigantescos e boa parte do corpo submersa. O sol batia no pelo molhado e criava reflexos prateados. Os gigantes passaram perto da nossa embarcação e continuaram, barulhentos, até a outra margem.
Boiada: a vida acontecendo ao redor do rioPimpa Brauen/Arquivo pessoal
Os guias apontavam aves que eu demorava a localizar. Vimos o frango-d’água-azul, garças, trinta-réis e outras aves aquáticas e rapinantes, como o gavião-belo. Entre os galhos, encontramos famílias de bugios vermelhos se movimentando com uma agilidade impressionante.
A frondosa paisagem não deve, porém, esconder os problemas do Magdalena. Sedimentação, desmatamento, ocupação desordenada das margens e poluição da água fazem parte da realidade do rio e de seus povos ribeirinhos. Ao fim daquele percurso, novas cores voltaram a aparecer: nas fachadas das casas, nas igrejas e, mais tarde, nas saias das mulheres que dançavam em Mompox, a nossa próxima parada.
Santa Cruz de Mompox
Durante a Colômbia colonial, Mompox foi a cidade-chave para a ligação da costa com os Andes. Fundada no século 16 sobre uma ilha fluvial, o lugar prosperou graças à posição estratégica entre Cartagena e o interior da então Nova Granada. Suas margens eram repletas de grandes embarcações e as ruas fervilhavam com o transporte de tabaco, metais preciosos e o contrabando de pessoas escravizadas. Quando as rotas fluviais mudaram, a cidade perdeu parte de sua antiga função comercial. No entanto, igrejas, casarões e oficinas de ourivesaria permaneceram. Seu relativo isolamento ajudou a conservar a estrutura urbana. Em 1995, Mompox foi reconhecida como Patrimônio Mundial pela Unesco.
Igreja Imaculada Concepción: sua versão atual foi construída no século 19, mas a estrutura original data de 1541Alfredodh/Wikimedia Commons
O AmaMelodia ficou atracado em Mompox por duas noites, o que nos permitiu conhecer a cidade em diferentes horas. E as horas importam. Ao meio-dia, a sensação térmica ultrapassava os 45°C. As ruas esvaziavam, as sombras diminuíam e qualquer deslocamento passava a ser calculado pela distância para o próximo pedaço de sombra. Até os ventiladores pareciam trabalhar acima da própria capacidade. Ao final da tarde, a cidade reaparecia, portas se abriam, cadeiras surgiam diante das casas e leques coloridos balançavam freneticamente. A Albarrada, como é conhecida a via do calçadão marginal com uma mureta de pedra, passa por algumas das igrejas católicas que marcam Mompox, entre elas Santa Bárbara, San Francisco e a Imaculada Concepción.
Igreja de Santa Bárbara: mais de 400 anos de históriaPimpa Brauen/Arquivo pessoal
Participamos de uma oficina de filigrana, uma técnica de ourivesaria artesanal. Na bancada, o metal era esticado até se transformar num fio extremamente fino. Depois vinham a torção, o achatamento, as curvas e a solda. Diante de uma peça pronta numa vitrine, é difícil imaginar quantas horas laboriosas foram despendidas. A tradição local da ourivesaria se insere numa história muito mais antiga. Antes da presença espanhola, povos indígenas da região, entre eles os zenú, já dominavam técnicas sofisticadas de trabalho com metais, como a fundição por cera perdida, um processo metalúrgico milenar que cria peças metálicas com ricos detalhes a partir de um modelo original em cera.
Ourivesaria: um dia como ourives mostrou que o ofício é mais complexo do que parecePimpa Brauen/Arquivo pessoal
O calor não dava trégua nem à noite. Durante a Mompox Midnight, famílias ocupavam as ruas. Vi crianças correndo entre adultos e as barracas de comidas, se lambuzando com sorvetes, esperando a vez nas tendas de tiro ao alvo e em outras brincadeiras.
Dias calientes: Mompox fica vazia nas horas escaldantes da tardePimpa Brauen/Arquivo pessoal
De repente, começaram os tambores. As mulheres entravam em cena com saias de várias camadas e velas nas mãos. Os homens se aproximavam fazendo reverências, abaixavam o corpo e recuavam. Elas giravam enquanto suas saias se abriam no ar. O suor escorria. Em algum momento, comecei a dançar também.
Não consegui saber exatamente quanto daquela programação aconteceria sem nossa presença. Preferi ficar com a dúvida – e com a epifania do momento.
Dançarinas: à noite, o calor ameniza e Mompox ganha vidaPimpa Brauen/Arquivo pessoal
Os sabores colombianos apareciam de diferentes maneiras nas refeições servidas no AmaMelodia, em pratos com camarões, coco, banana-da-terra, ceviche, peixes e frutas tropicais, ao lado de opções mais, digamos, internacionais. Mas foram alguns detalhes inesperados que ficaram. Os sorvetes preparados a bordo, por exemplo, eu sempre repetia. Um dos garçons me ensinou uma combinação que parecia estranha até a primeira colherada: sorvete de chocolate com sal e pimenta-do-reino moídos na hora. Gostei tanto que trouxe o hábito comigo.
No fim da tarde, o bar virava ponto de encontro. Era a hora do Sip & Sail, o happy hour da embarcação. Os passageiros se reuniam para beber, conversar, jogar cartas ou algum jogo de tabuleiro. Era também ali que a equipe apresentava a programação do dia seguinte, com horários, passeios e os detalhes práticos das excursões.
Depois de alguns dias, percebi que os confortos mais importantes eram bastante prosaicos. Eu adorava saber que não precisaria fechar a mala para seguir viagem após voltar de uma excursão sob o sol. Eu apenas almoçava e, quando retornava ao deck, o endereço já havia mudado.
Chocolate, pimenta e sal: menu do barco apresenta novas combinaçõesPimpa Brauen/Arquivo pessoal
El Banco e Santa Bárbara de Pinto
A cumbia contagiou a tripulação quando músicos e dançarinos de El Banco, conhecida como a Cidade Império da Cúmbia, subiram a bordo. Eles nos apresentaram seus instrumentos e falaram sobre as diferentes matrizes que compõem essa cultura musical de raízes indígenas, africanas e influências europeias.
Eu acompanhava sentada até começarem a distribuir saias aos passageiros. Pouco depois, o lounge inteiro estava de pé (e caracterizado). Os músicos aceleravam e nossos passos ficavam para trás, mas ninguém parecia muito preocupado. A atmosfera era de diversão e descoberta.
Cúmbia: dança tradicional de El Banco é uma mistura de ritmos africanos, indígenas e espanhóisPimpa Brauen/Arquivo pessoal
Mais tarde, chegamos a Santa Bárbara de Pinto, uma cidade cuja economia gira em torno da pesca artesanal.
A escala era completamente diferente de Mompox. Não havia um grande conjunto de igrejas ou casarões. Paramos para conversar com um grupo de pescadores. Sentados, eles mostraram como confeccionavam suas redes. Um nó, depois outro, e lentamente os fios iam formando a trama.
Detalhes: a beleza de Santa Bárbara de Pinto está nas entrelinhasPimpa Brauen/Arquivo pessoal
Mais adiante, um morador pegou folhas de tabaco e nos mostrou como enrolava à mão até formar o cigarro. Não era preciso explicar muito. Bastava observar a destreza dos dedos. Em Santa Bárbara de Pinto, a beleza estava nos gestos e nas conversas afetuosas com quem vive ali.
Igreja de Santa Bárbara de Pinto: dançarinos se apresentam em frente ao temploPimpa Brauen/Arquivo pessoal
Calamar, Canal del Dique e San Basilio de Palenque
Todo pôr do sol era muito laranja e a cor se refletia no verde-água formando uma verdadeira pintura. Então Calamar apareceu. Uma parada mais movimentada, com motos, vendedores, frutas e caixas empilhadas pelas calçadas.
Percorremos parte da cidade nas paolas (riquixás, tradicionais na região). Ali, eu vi muitas cores e ouvi muita música. Em Calamar, onde o Magdalena apresenta uma das suas maiores vazões, parte da água é desviada para o histórico Canal del Dique. Aves atravessavam o céu em formações em V e pequenas embarcações despontavam.
Da água, seguimos para uma das experiências que mais me interessaram durante a viagem: San Basilio de Palenque.
Nosso guia, Erick, nasceu naquele vilarejo. Ele cumprimentava as pessoas pelo nome, sabia quem pertencia a qual família e entrava em determinados espaços com a naturalidade de quem estava em casa.
Palenque: vilarejo é símbolo de resistênciaPimpa Brauen/Arquivo pessoal
A comunidade tem origem na resistência de africanos escravizados que fugiram do sistema colonial e formaram assentamentos autônomos nos Montes de María. No início do século 17, Benkos Biohó liderou essa resistência e tornou-se uma das figuras centrais da luta pela liberdade na região. Capturado pelas autoridades espanholas, foi executado em Cartagena em 1621. Hoje, Palenque reivindica a condição de primeiro povo negro livre das Américas.
Por suas ruas, a língua palenquera continua sendo falada. Vale lembrar que as línguas crioulas da Colômbia nasceram historicamente do contato entre o espanhol e línguas africanas e se mantiveram como importantes expressões da identidade local. San Basilio de Palenque conta também com a Guardia Cimarrona, uma organização comunitária desarmada que atua na proteção da comunidade e na mediação de conflitos.
Durante o passeio, conhecemos Pedro Reyes Miranda, conhecedor dos usos tradicionais das plantas endógenas. Seu trabalho está relacionado a saberes ancestrais sobre folhas, raízes e preparações usadas há gerações na comunidade.
A música voltou a nos acompanhar quando entramos em um estúdio de gravação e pudemos conhecer alguns músicos e seus tambores. Esses instrumentos estão muito presentes na cultura local e, historicamente, tiveram outras funções na comunicação e na vida coletiva.
Nas fotografias de Palenque (e de Cartagena), geralmente estão retratadas as palenqueras, com seus vestidos de cores intensas, turbantes e cestos de frutas. Essas mulheres negras representam a resistência africana na Colômbia e foi muito especial conhecer de perto a história que existe por trás dessas imagens.
Palenqueras colorem a cidade com seus vestidosPimpa Brauen/Arquivo pessoal
Cartagena
Depois de uma semana entre margens, canais e cidades pequenas, Cartagena surge barulhenta, enorme e majestosa. Carros, restaurantes, hotéis, turistas, vendedores, tudo passa à nossa frente ao mesmo tempo. E eu já havia me acostumado ao exato oposto.
A ligação entre o Magdalena e Cartagena começou a ser construída no período colonial. Essa é uma história de trabalho forçado de indígenas e africanos escravizados.
Chegar à cidade depois de percorrer o Magdalena reorganizava a geografia da viagem na minha cabeça. Mompox prosperou dentro das antigas rotas comerciais que seguiam até Cartagena. O Canal del Dique foi aberto justamente para estabelecer uma ligação entre o Magdalena e a Baía de Cartagena. Palenque nasceu da resistência ao sistema escravista do qual Cartagena foi um dos grandes centros no Caribe.
Centro histórico de Cartagena: ponto final do AmaMelodiaDr. Thomas Liptak/Wikimedia Commons
Gabriel García Márquez também viveu em Cartagena, onde trabalhou como jornalista e manteve uma longa relação com a cidade. Em 1949, ainda como um jovem repórter, Gabo acompanhou trabalhos nas antigas criptas do Convento de Santa Clara. A descoberta de uma cabeleira extraordinariamente longa numa das sepulturas se misturou, em sua memória, a uma história que ouvira da avó. Décadas depois, aquela lembrança estaria na origem de “Do Amor e Outros Demônios”. Hoje, esse antigo convento abriga o Sofitel Legend Santa Clara.
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Em Getsemaní, o bairro mais vibrante e boêmio, murais ocupam paredes inteiras e plantas descem das sacadas. Bares, cafés, galerias e hotéis se multiplicam todos os anos. Mas se algumas ruas estão tomadas por visitantes, a rotina do bairro aparece, mostrando o modo de vida local. A especulação trouxe investimentos e novos negócios, mas também elevou o preço dos imóveis e tornou mais difícil a permanência dos antigos moradores.
Na última noite a bordo, participei da Bolívar Dining Experience, um jantar exclusivo com um menu degustação de cinco pratos da culinária colombiana contemporânea. Entre as delícias à mesa, provei palmito fresco, empanada de caranguejo, sorbet de corozo, carne bovina cozida, cheesecake de abóbora, tudo harmonizado com vinhos e drinks deliciosos.
Durante uma semana, dormi na mesma cama enquanto o endereço mudava. Não precisei fechar a mala, enfrentar horas de estrada ou passar por aeroportos entre uma cidade e outra. Pela manhã, bastava abrir os olhos que o Magdalena estava ali.
Ao mesmo tempo, foram as relações humanas que marcaram muitas das escalas ao longo do rio. Em muitas dessas paradas, o acolhimento aparecia nos olhares, nos sorrisos e nas conversas.
Na manhã do desembarque, Cartagena já estava acordada. Da semana no Magdalena, ficaram imagens que ainda pareciam passar diante dos meus olhos: a tarrafa se abrindo sobre a água, os búfalos atravessando o rio, os bugios escondidos entre os galhos. Lembrei das saias rodando em Mompox, das fibras de iraca em Usiacurí e das crianças que empinavam pipas na margem e paravam para olhar o AmaMelodia passar.
Na última manhã, pela primeira vez, o rio não seguiria comigo.
Adiós, Magdalena: um último olhar para o rioPimpa Brauen/Arquivo pessoal
Serviço
Os trajetos de 7 noites do AmaMelodia entre Barranquilla e Cartagena acontecem semanalmente. Pacotes a partir de US$ 3299 por pessoa em cabine dupla com todas as refeições incluídas e passeios. Tarifas portuárias: US$ 250 por pessoa em 2026. Saiba mais
Como chegar
Voos até Barranquilla fazem conexão em Bogotá (Avianca) ou no Panamá (Copa).
Quando ir
Faz calor o ano inteiro no Magdalena. Entre janeiro e março chove menos, mas as temperaturas são muito altas. De setembro a novembro, o calor dá uma pequena trégua, em compensação chove mais e a umidade aumenta.
Dica
Leve roupas leves, chapéu, protetor solar, repelente e sapatos confortáveis que possam molhar e sujar. As temperaturas costumam ser muito altas e, com o calor, é comum trocar de roupa mais de uma vez ao dia; há lavanderia a bordo. Binóculos são ótimos para observar a vida selvagem. Antes da viagem, preencha o CheckMig, formulário migratório obrigatório para entrar na Colômbia.
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