Entre o medo e o encantamento: como conviver com a inteligência artificial?

De tempos em tempos, a inteligência artificial volta ao noticiário acompanhada de uma pergunta que parece saída de um filme de ficção científica: a IA poderia um dia representar uma ameaça à própria humanidade?
É uma discussão importante e que merece ser acompanhada por pesquisadores, empresas, governos e pela sociedade. Mas, enquanto debatemos cenários sobre o futuro, existe outra conversa acontecendo agora, dentro das nossas casas, dos nossos celulares, das escolas e dos ambientes de trabalho.
A inteligência artificial já está entrando na nossa vida.
Ela ajuda a pesquisar uma viagem, organizar informações, traduzir um texto, comparar produtos, estudar, criar uma receita com o que temos na geladeira, escrever uma mensagem ou planejar uma rotina.
Talvez por isso nossa relação com essa tecnologia seja tão contraditória.
O AI Index 2026, da Universidade Stanford, mostra que 59% das pessoas pesquisadas globalmente consideram que produtos e serviços com inteligência artificial trazem mais benefícios do que desvantagens. Ao mesmo tempo, 52% dizem que esses produtos as deixam nervosas.
Não me parece uma contradição. Parece uma reação bastante humana diante de uma tecnologia que avança rapidamente e cujo impacto ainda estamos aprendendo a compreender.

Nem medo, nem encantamento

Quando uma tecnologia oferece possibilidades tão grandes, dois extremos podem aparecer.
De um lado, o medo de que ela substitua pessoas, empregos, relações e, nos cenários mais extremos, represente uma ameaça para a própria humanidade.
Do outro, o encantamento com a ideia de que a inteligência artificial será capaz de resolver praticamente qualquer problema.
Talvez não precisemos escolher nenhum desses extremos.
Uma pesquisa divulgada neste mês pelo Pew Research Center ajuda a dimensionar esse sentimento. Foram ouvidas mais de 42 mil pessoas em 36 países, entre eles o Brasil.
Em muitos lugares, preocupação e entusiasmo com a IA aparecem lado a lado.
No Brasil, a preocupação entre os jovens também aumentou em relação ao levantamento anterior.
Isso nos diz algo importante: quanto mais a inteligência artificial se aproxima da vida cotidiana, mais precisamos aprender não apenas a utilizá-la, mas a pensar sobre como a utilizamos.

O que estamos dispostos a delegar?

Para mim, essa é uma das perguntas mais interessantes dessa transformação.
Usar inteligência artificial para organizar uma lista de compras é uma coisa. Permitir que um sistema influencie uma decisão importante sobre nossa saúde, dinheiro, carreira ou filhos envolve outro nível de responsabilidade.
A tecnologia pode nos ajudar nessas situações. Mas ajudar a decidir e decidir por nós não é necessariamente a mesma coisa.
Por isso, acredito que uma habilidade cada vez mais importante será compreender o que estamos dispostos a delegar à tecnologia e o que queremos continuar exercitando como capacidade humana.
Se sempre peço à IA que escreva por mim, continuo exercitando minha capacidade de organizar pensamentos?
Se recebo uma resposta pronta, consigo questioná-la?
Se uma ferramenta recomenda determinada escolha, sei quais informações foram consideradas?
Não se trata de usar menos tecnologia. Trata-se de usá-la com intenção.

A inteligência artificial também pode ampliar o que sabemos fazer

Ao longo da história, tecnologias ampliaram capacidades humanas.
Calculadoras não eliminaram a matemática.
GPS não tornou desnecessário compreender onde estamos.
A internet não acabou com a necessidade de conhecimento.
Novas ferramentas se incorporaram àquilo que já sabíamos fazer e abriram outras possibilidades.
Com a inteligência artificial, podemos viver algo semelhante, mas em uma escala e velocidade diferentes.
Uma pessoa pode utilizá-la para aprender um idioma, compreender melhor um conteúdo, organizar as finanças domésticas, desenvolver uma ideia, ganhar produtividade ou acessar informações que antes pareciam distantes.
Quando a inteligência artificial amplia nossa curiosidade, ajuda a formular perguntas melhores ou permite explorar possibilidades, ela pode aumentar nossa capacidade de agir.
O cuidado começa quando deixamos de questionar porque a resposta parece convincente ou transferimos para a tecnologia responsabilidades que exigem contexto, julgamento e valores humanos.

Continuaremos sendo responsáveis pelas perguntas

Quanto mais sofisticadas essas ferramentas se tornam, melhores serão muitas das respostas que receberemos.
Mas existe algo que continua sendo nosso: decidir o que perguntar, o que perguntar e o que fazer com a resposta.
Isso exige pensamento crítico: conferir informações importantes, reconhecer que sistemas podem errar, proteger dados pessoais e compreender que uma resposta bem escrita não é automaticamente uma resposta correta.
Significa também ensinar crianças e jovens a fazer isso.
Talvez uma das maiores responsabilidades desta geração seja justamente ajudá-los a crescer não apenas sabendo utilizar inteligência artificial, mas sabendo pensar ao lado dela.

O futuro também será construído pelas nossas escolhas

Não sabemos exatamente até onde a inteligência artificial chegará. Existem pesquisadores discutindo riscos de longo prazo, governos criando regras, empresas desenvolvendo mecanismos de segurança e uma sociedade inteira tentando compreender uma tecnologia que evolui rapidamente.
Mas não precisamos esperar pelo futuro para decidir qual relação queremos construir com ela.
Podemos começar com perguntas mais simples:
Essa ferramenta está ampliando minha capacidade ou estou deixando de exercitar algo importante?
Estou usando a IA para pensar melhor ou apenas para receber uma resposta mais rápido?
Essa é uma decisão que posso delegar ou exige meu julgamento?
Talvez nossa relação com a inteligência artificial não precise ser guiada nem pelo medo nem pelo encantamento.
Pode ser guiada por consciência, curiosidade e responsabilidade.
Porque, independentemente de quão inteligentes as tecnologias se tornem, ainda seremos nós que precisaremos decidir o que queremos fazer com elas.