Há um momento em que um destino deixa de ser apenas uma paisagem bonita e começa, de fato, a virar viagem. É quando aparece um roteiro, uma experiência, um hotel, um receptivo, um agente que conhece o produto e um viajante disposto a comprá-lo. Foi justamente essa engrenagem que movimentou o segundo dia da 53ª ABAV Expo, nesta quinta-feira (1º), no Expo Center Norte, em São Paulo.
Com mais de 2.000 marcas reunidas, a maior feira de turismo da América Latina colocou no mesmo espaço agentes de viagens, operadores, destinos, compradores e fornecedores brasileiros e estrangeiros. Na prática, o evento funciona como uma grande vitrine do que pode chegar às prateleiras das agências nos próximos meses, de destinos já conhecidos que tentam ampliar sua oferta a experiências menos óbvias que buscam espaço no mercado brasileiro.
China, Peru, Uruguai, República Dominicana, Costa Rica, África do Sul, Itália e Canadá estão entre os mercados internacionais presentes. Do lado brasileiro, São Paulo, Minas Gerais, Tocantins, Paraíba, Ceará, Alagoas, Mato Grosso do Sul, Manaus, Paraná e Rio Grande do Sul apresentam novos produtos e roteiros.
A lógica é simples: quanto mais próximo o contato entre quem cria a experiência e quem vende a viagem, maiores as chances de que aquele produto chegue ao consumidor. Nesta edição, mais de 500 agentes de viagens convidados, de todas as regiões do país, participam da programação. O ABAV Buyers Club acrescenta à equação 30 compradores internacionais e 20 DMCs (agência local que planeja e executa a logística, os roteiros e as experiências para visitantes em uma região) nacionais, em reuniões e rodadas de negócios com expositores e destinos.
“A ABAV Expo é, acima de tudo, um ambiente de negócios”, afirma Ana Carolina Medeiros, presidente da ABAV Nacional. Segundo ela, o agente tem papel central por conhecer o cliente e fazer a curadoria da enorme quantidade de produtos apresentada na feira.
Do quintal gastronômico ao turismo de bem-estar
Uma das primeiras paradas do segundo dia foi justamente fora dos circuitos turísticos mais conhecidos. Em uma imersão promovida pelo Sebrae, jornalistas, influenciadores e convidados conheceram experiências criadas a partir das vocações de diferentes territórios brasileiros. A proposta é transformar gastronomia, natureza, cultura e modos de vida em produtos que possam ser comercializados pelas agências.
No Ceará, os Quintais Gastronômicos da Rota dos Ventos valorizam a chamada culinária afetiva e o trabalho de pequenas cozinheiras capacitadas pelo Sebrae. Em Rondônia, a Amazônia Beradeira percorre a região do Cuniã em um roteiro que mistura natureza, história e experiências fluviais. Na Chapada dos Veadeiros, a Rota Viva Veadeiros aposta no turismo de bem-estar.
A viagem apresentada pelo Sebrae passa ainda pela Rota dos Cafés Especiais da Serra da Canastra, em Minas Gerais, que aproxima o visitante dos cafezais e dos produtores locais, e pelos Cânions do Sul, onde a Georrota conecta dois estados e sete municípios em um único roteiro.
São experiências que têm em comum o fato de nascerem nos próprios territórios e dependerem de uma cadeia local para chegar ao visitante. Para pequenos empreendedores, a feira representa uma oportunidade de encontrar quem pode colocar esses produtos no mercado; para o viajante, significa ter acesso a experiências que dificilmente aparecem em um roteiro convencional.
Peru quer ir além de Machu Picchu
Entre os destinos internacionais, o Peru chegou à feira com uma mensagem bastante clara: há muito mais para conhecer depois de Machu Picchu.
O país aproveitou a ABAV Expo para lançar a Peru Week 2026, campanha de promoção e comercialização que chega à 13ª edição. Entre 5 e 23 de outubro, 89 operadoras de turismo participam da iniciativa, com pacotes, itinerários e experiências em condições especiais de compra, inclusive para viagens realizadas ao longo de 2027.
A oferta apresentada inclui combinações de Lima e Paracas e roteiros por Cusco, Puno, Arequipa e Ancash, ampliando o leque para viagens de cultura, gastronomia, natureza e aventura. “Queremos mostrar aos brasileiros e, principalmente, aos agentes de viagens e operadores que o Peru é muito além de Machu Picchu”, afirma Milagros Ochoa, diretora do PROMPERÚ.
A China também amplia sua presença na feira, com diferentes representações, entre elas Beijing. O objetivo é aproximar o destino de agentes e operadores brasileiros e apresentar produtos capazes de alimentar novos roteiros. A expectativa é que a maior familiaridade dos profissionais com a oferta chinesa ajude a ampliar as possibilidades de viagem para o país.
Uruguai aposta em sabores e novos caminhos
O Uruguai, por sua vez, usa a ampliação da conectividade aérea como uma das portas de entrada para estimular os brasileiros a explorar regiões além dos destinos tradicionalmente procurados.
Na ABAV Expo, o país combinou a divulgação de novos lugares com uma estratégia bastante sensorial: a gastronomia. Sabores de diferentes regiões uruguaias foram levados ao estande como forma de apresentar aos agentes uma oferta turística que vai além dos destinos mais conhecidos.
“A melhor conectividade aérea facilita o acesso ao Uruguai e abre a possibilidade de conhecer muito mais do país”, afirma Serrana Diaz, responsável pelo marketing do Ministério do Turismo do Uruguai.
A Costa Rica segue uma linha semelhante de diversificação. O destino promove uma oferta associada ao turismo regenerativo e sustentável, reunindo natureza, aventura e bem-estar. Entre as experiências apresentadas estão águas termais, surfe, observação de aves e baleias, montanhas, praias e roteiros gastronômicos e de café.
A ideia é ampliar a imagem do país para além dos roteiros tradicionais e, ao mesmo tempo, capacitar os profissionais brasileiros para vender essas experiências.
África sobre trilhos
Para quem pensa em conhecer a África de uma maneira menos convencional, a Rovos Rail apresentou na feira seus itinerários de luxo sobre trilhos. São 11 opções, com duração de duas a 16 noites, combinando viagens de trem com excursões, gastronomia e bebidas.
Uma das novidades é o Malawi, incorporado às rotas da companhia neste ano. Angola também está no mapa da empresa, que realiza viagens pelo país desde 2019.
A proposta é usar o trem como uma espécie de fio condutor para atravessar diferentes paisagens do continente. “A África é um continente enorme e muito diverso, onde encontramos desertos, florestas e praias. A Rovos Rail funciona como uma porta de entrada para conhecer essa diversidade”, afirma Regárdo Lewis, International Sales Manager da companhia.
Na República Dominicana, o destaque ficou por conta da nova fase de desenvolvimento de Puerto Plata, com o projeto Punta Bergantín e a chegada de grandes redes hoteleiras. O país também busca ampliar a conectividade aérea com a América do Sul e considera o mercado brasileiro estratégico para esse movimento. Segundo o Ministério do Turismo dominicano, mais de 250 mil brasileiros haviam visitado o país até setembro.
Canadá mira aurora boreal, trens e motorhomes
O Canadá também quer ampliar sua presença entre os produtos vendidos pelas agências brasileiras. A iniciativa apresentada na ABAV Expo reúne 14 parceiros e inclui produtos pensados para diferentes perfis de viajantes.
Entre eles estão roteiros para observar a aurora boreal, viagens de trem, viagens de motorhome e experiências de slow travel. Há ainda opções com guias em português ou espanhol e suporte receptivo 24 horas no destino.
“Queremos que o agente se sinta seguro para vender o Canadá. É um destino que exige conhecimento técnico, e nosso papel é oferecer capacitação e produtos adequados ao mercado brasileiro”, afirma Sheila Nassar, CEO da VBRA.
São Paulo tenta mostrar que vai muito além da capital
Entre os destinos brasileiros, São Paulo aparece em uma posição peculiar: é simultaneamente anfitrião da feira e um dos mercados que mais têm a ganhar com a diversificação da oferta.
O Estado apresenta uma estrutura turística que reúne 78 Estâncias Turísticas, 206 Municípios de Interesse Turístico, 49 regiões turísticas e nove Distritos Turísticos. A oferta passa por natureza, aventura, gastronomia, cultura, turismo rural e negócios.
A capital, por sua vez, aposta em gastronomia, cultura, grandes eventos e lazer. A cidade recebeu 47,2 milhões de turistas em 2025, sendo 2,5 milhões internacionais, e contabilizou 25,4 milhões de visitantes no primeiro semestre de 2026. Durante a feira, a programação incluiu experiências pela cidade, uma atividade exclusiva para associados no Espaço Agente ABAV e o painel “São Paulo, Cidade Gastronômica”.
Entre os produtos apresentados está o Vai de Roteiro, com 37 roteiros pela cidade. A ideia é fazer com que o visitante conheça São Paulo também pelos bairros e por experiências que escapam do circuito mais conhecido.
No interior, Joinville, em Santa Catarina, apresentou uma oferta que combina calendário de eventos e turismo rural. A temporada de Natal, que chega a movimentar mais de 700 mil pessoas, a Festa das Flores e mais de 50 atrações ligadas ao turismo rural estão entre os destaques apresentados na feira.
Minas Gerais, Tocantins, Paraíba, Ceará, Alagoas, Mato Grosso do Sul, Manaus, Paraná e Rio Grande do Sul também usam a ABAV Expo para aproximar seus produtos de agentes e operadores e ampliar a presença de novas experiências nos roteiros comercializados no país.
O que muda para quem viaja
Embora boa parte da movimentação da ABAV Expo aconteça nos bastidores, entre reuniões e negociações, o resultado pretendido aparece na ponta: novos produtos nas agências e mais possibilidades de escolha para o viajante.
Essa conexão também foi tema da programação de conteúdo da feira. No ABAV Talks, o painel “Brasil Recebe: Fortalecimento do Turismo Receptivo” discutiu a necessidade de aproximar poder público, iniciativa privada e os diferentes elos da cadeia para transformar atrativos em produtos estruturados e comercializáveis. A capacitação dos profissionais e a organização da operação foram apontadas como pontos importantes nesse processo.
Outro painel colocou no centro experiências de turismo de base comunitária, com exemplos ligados a periferias, quilombos e territórios indígenas. A discussão tratou da procura crescente por experiências conectadas aos territórios e da necessidade de que elas sejam comercializadas de maneira responsável, preservando o protagonismo das comunidades que recebem os visitantes.
No fim, é essa transformação que interessa a quem está do outro lado da cadeia. Uma região que antes aparecia apenas como ponto no mapa pode ganhar um roteiro; uma pequena produtora pode virar parada de uma viagem; um destino conhecido pode revelar um lado menos explorado; e um agente pode colocar tudo isso no catálogo que chega ao viajante.
É o movimento silencioso por trás de uma feira de turismo: antes de aparecer no celular ou no balcão de uma agência, a próxima viagem muitas vezes começa numa conversa entre quem tem um produto e quem sabe para quem vendê-lo.




