O corpo humano faz coisas curiosas. Às vezes, basta ouvir a própria voz em um áudio para estranhá-la. Em outras situações, comemos algo apimentado e o nariz começa a escorrer. Choramos e precisamos assoar o nariz. Bocejamos e, de repente, sentimos o ouvido “desentupir”.
Embora pareçam acontecimentos sem nenhuma relação entre si, muitos desses fenômenos envolvem estruturas estudadas pela otorrinolaringologia. Ouvido, nariz, garganta, voz, olfato e paladar estão muito mais conectados do que imaginamos.
Separei seis situações bastante comuns e a explicação por trás de cada uma delas.
1. Por que nossa própria voz parece tão estranha em um áudio?
Quando falamos, ouvimos nossa própria voz de uma maneira diferente daquela como as outras pessoas a escutam.
Isso acontece porque percebemos nossa voz por dois caminhos. O primeiro é a condução aérea: o som viaja pelo ar até chegar aos nossos ouvidos. O segundo ocorre pelas vibrações transmitidas pelos ossos do crânio, fenômeno conhecido como condução óssea.
Essa combinação faz com que a voz que escutamos enquanto falamos tenha características diferentes daquela registrada pelo celular.
Ao ouvir uma gravação, perdemos grande parte da contribuição da condução óssea e passamos a escutar nossa voz predominantemente da forma como ela chega aos outros pelo ar. Por isso, ela pode parecer mais aguda, fina ou simplesmente “estranha”.
Portanto, não é necessariamente o celular que está transformando completamente a nossa voz. Nós é que passamos a vida acostumados a ouvi-la de uma forma que as outras pessoas não ouvem.
2. Por que choramos e o nariz começa a escorrer?
Olhos e nariz possuem uma comunicação anatômica.
As lágrimas não ficam apenas na superfície dos olhos. Parte delas é drenada pelo sistema lacrimal e segue em direção à cavidade nasal.
Quando choramos bastante, a produção de lágrimas aumenta e uma quantidade maior desse líquido chega ao nariz. É por isso que, depois de algum tempo chorando, começamos a fungar e sentimos necessidade de assoar o nariz.
Isso não significa que a pessoa ficou gripada ou desenvolveu uma rinite de repente. É simplesmente uma consequência da conexão existente entre olhos e nariz.
3. Por que comida apimentada faz o nariz escorrer?
Você dá a primeira garfada em um prato muito apimentado e, poucos segundos depois, percebe que o nariz começou a escorrer.
Esse fenômeno pode estar relacionado à chamada rinite gustativa, uma forma de rinite não alérgica. Alimentos picantes ou muito quentes podem estimular mecanismos nervosos que aumentam a produção de secreção nasal.
O resultado pode ser uma coriza praticamente imediata durante ou logo depois da refeição.
É importante entender que isso não deve ser automaticamente interpretado como alergia alimentar. Na rinite gustativa, existe uma resposta nasal provocada pelo estímulo do alimento, mas o mecanismo é diferente daquele envolvido em uma reação alérgica.
4. Por que bocejar pode “desentupir” o ouvido?
Quem já viajou de avião ou subiu uma serra provavelmente conhece aquela sensação de pressão no ouvido seguida por um pequeno estalo e um alívio quase imediato.
Uma das estruturas envolvidas nesse processo é a tuba auditiva, que conecta o ouvido médio à região posterior do nariz e ajuda a equilibrar a pressão entre o ouvido médio e o ambiente.
Movimentos como engolir e bocejar podem favorecer temporariamente a abertura dessa estrutura. Quando isso acontece, ocorre a equalização da pressão e podemos sentir aquele característico “estalo”.
É por isso que bocejar ou engolir pode ajudar quando sentimos os ouvidos tampados durante mudanças de altitude.
5. Por que o nariz começa a escorrer durante uma corrida?
Nem toda coriza significa gripe, resfriado ou alergia.
Algumas pessoas percebem que o nariz começa a escorrer justamente quando iniciam uma corrida ou outro exercício físico. A atividade física e as condições do ambiente podem provocar alterações na mucosa nasal e aumentar a secreção.
Portanto, é possível apresentar coriza durante o exercício mesmo estando saudável.
Quando isso acontece ocasionalmente e está claramente relacionado à atividade física, pode fazer parte da própria resposta nasal ao exercício e ao ambiente. Mas, se a coriza for muito intensa, frequente ou começar a prejudicar a prática esportiva, é interessante investigar se existem outras condições associadas.
6. Por que a gripe pode fazer a comida parecer sem gosto?
O que chamamos popularmente de “sabor” depende muito mais do olfato do que costumamos perceber.
Quando estamos gripados ou resfriados e o nariz fica congestionado, os aromas dos alimentos têm mais dificuldade para alcançar adequadamente a região responsável pela percepção olfatória.
Por isso, mesmo que a língua continue identificando gostos básicos, como doce, salgado, azedo, amargo e umami, a experiência completa de comer pode ficar bastante prejudicada.
É daí que surge aquela sensação de que “a comida está sem gosto” quando estamos com o nariz muito entupido. Muitas vezes, o que percebemos como perda do paladar é, na realidade, consequência de uma redução temporária do olfato.
No entanto, uma perda súbita, intensa ou persistente do olfato ou do paladar merece atenção, principalmente quando não há uma obstrução nasal que explique o quadro ou quando o sintoma continua mesmo depois da melhora da infecção respiratória.
Essas seis situações ajudam a mostrar como diferentes regiões do nosso organismo estão interligadas. Ouvido, nariz, garganta, voz, olfato e paladar não funcionam como sistemas completamente independentes.
Aquilo que parece uma reação estranha do corpo muitas vezes tem uma explicação anatômica ou fisiológica relativamente simples. O mais importante é saber diferenciar fenômenos passageiros e comuns do cotidiano de sintomas persistentes, intensos ou acompanhados de outros sinais, que devem ser avaliados por um médico.





