Autismo não é superpoder: quando a romantização impede as famílias de encontrar apoio

Uma mãe chega ao fim do dia exausta. O filho teve uma crise diante de uma mudança inesperada na rotina, a escola relatou problemas de convivência e tarefas simples exigiram mais tempo e apoio do que ela imaginava. Ao compartilhar suas preocupações, escuta que o autismo é um superpoder e que basta respeitar o jeito de a criança ser.

A intenção pode ser positiva, mas essa resposta nem sempre acolhe. Para muitas famílias, o autismo traz desafios concretos que não desaparecem com mensagens motivacionais. Reconhecer essa realidade não significa deixar de valorizar a criança.

Nos últimos anos, a presença do autismo nas redes sociais e na televisão ajudou a ampliar a conscientização. Porém, algumas representações reforçam a ideia de que toda pessoa autista tem memória excepcional, inteligência acima da média ou algum talento extraordinário. Na realidade, o espectro é diverso: há pessoas com altas habilidades, outras com inteligência dentro da média e outras com deficiência intelectual. As necessidades de suporte também variam de pessoa para pessoa.

Quando a imagem idealizada se torna uma regra, famílias que não se identificam com essas representações podem se sentir ainda mais sozinhas. Uma mãe cujo filho não utiliza a fala para se comunicar ou precisa de apoio intenso nas atividades cotidianas não deveria ter de justificar sua experiência para ser acolhida.

O autismo pode influenciar diferentes aspectos da vida, da comunicação à participação social. Uma ida ao supermercado, uma festa de aniversário ou uma mudança na rotina escolar podem exigir preparação e adaptações. Em algumas famílias, o cuidado também envolve terapias, reuniões com professores, deslocamentos e a busca constante por profissionais capacitados.

Outro equívoco é confundir autismo com falta de empatia ou psicopatia. O transtorno do espectro autista é uma condição do neurodesenvolvimento, enquanto os transtornos de personalidade pertencem a outra categoria clínica. São conceitos diferentes. Uma pessoa autista pode ter dificuldade para interpretar expressões faciais ou demonstrar sentimentos de uma maneira socialmente esperada sem que isso signifique ausência de afeto ou preocupação com o outro.

Na prática, as famílias precisam de orientação e estratégias individualizadas. Se uma criança sofre com barulhos, pode ser necessário adaptar ambientes e antecipar situações. Se tem dificuldade para expressar necessidades, recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa podem ajudar. Quando a rotina escolar não funciona, família e escola podem construir soluções em conjunto, com apoio profissional.

Também é fundamental olhar para quem cuida. Mães e outros familiares podem sentir cansaço, insegurança e preocupação com o futuro. Buscar apoio psicológico, dividir responsabilidades e procurar grupos de acolhimento são formas de fortalecer a rede de cuidado.

Valorizar uma pessoa autista não significa negar suas necessidades, assim como reconhecer essas necessidades não diminui suas potencialidades. Cada pessoa tem interesses, capacidades e formas próprias de se desenvolver, e o suporte adequado pode ampliar sua autonomia e participação.

O autismo não precisa ser tratado como tragédia, mas também não deve ser transformado em uma história inspiradora que ignora a realidade. Acolher de verdade é escutar o que cada família vive, respeitar a singularidade de cada pessoa e garantir que ninguém precise esconder suas dificuldades para ser respeitado.

Por Thaís Barbisan, psicóloga e neuropsicóloga