“Será que ainda dá tempo?” Essa é uma das perguntas que podem acompanhar famílias que recebem o diagnóstico de autismo de um filho já na infância tardia ou na adolescência. Depois de anos de dúvidas, avaliações e tentativas de compreender comportamentos, muitos pais chegam aos consultórios com medo de terem perdido uma fase importante do desenvolvimento.
A intervenção precoce é relevante, mas isso não significa que a adolescência represente o fim das possibilidades de aprendizagem. O desenvolvimento continua, embora os objetivos, as estratégias e o ritmo dos avanços sejam diferentes para cada pessoa. O diagnóstico tardio não apaga as oportunidades que ainda podem ser construídas.
Quando um adolescente chega ao atendimento sem fala funcional, com dificuldade para expressar necessidades ou dependente de ajuda para atividades cotidianas, o primeiro passo não deve ser tentar recuperar tudo de uma vez. É necessário compreender quem é esse jovem, quais habilidades já possui, como aprende, o que lhe interessa e quais barreiras dificultam sua participação em casa, na escola e na comunidade.
A partir dessa avaliação, é possível estabelecer metas concretas. Para alguns adolescentes, o primeiro avanço pode ser comunicar que estão com fome, pedir ajuda ou indicar desconforto. Para outros, pode ser organizar materiais escolares, cuidar da higiene pessoal, participar de uma atividade em grupo ou aprender a lidar melhor com mudanças na rotina.
Quando a fala não é funcional, recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa, como imagens, pranchas e dispositivos de comunicação, podem ajudar o adolescente a expressar desejos, escolhas e sentimentos. Comunicar-se não depende exclusivamente da fala oral, e oferecer outros meios de expressão pode ampliar sua participação e autonomia.
Outro ponto essencial é envolver a família e a escola no processo. As habilidades desenvolvidas nas sessões precisam fazer sentido na vida real. De nada adianta trabalhar uma atividade na clínica se o adolescente não encontra oportunidades para utilizá-la em sua rotina. A aprendizagem ganha força quando diferentes ambientes oferecem apoio consistente e respeitam suas necessidades.
Também é importante olhar para a adolescência como uma etapa com demandas próprias. Mudanças corporais, convivência com colegas, construção da identidade e necessidade de pertencimento devem fazer parte do planejamento. O adolescente não pode ser tratado apenas como uma criança mais velha: precisa ser ouvido, respeitado e incluído nas decisões possíveis sobre sua própria vida.
Para os pais, talvez um dos maiores desafios seja abandonar a culpa pelo tempo que passou. Nem sempre os sinais foram reconhecidos, e nem todas as famílias tiveram acesso a informação, profissionais ou serviços especializados. Em vez de buscar culpados, é mais produtivo concentrar esforços nas necessidades atuais e nos próximos passos.
Não existe uma trajetória única nem garantia de que todas as habilidades serão alcançadas. Há, porém, espaço para ensinar, adaptar, descobrir potencialidades e construir novas formas de participação. O progresso pode aparecer em conquistas que parecem pequenas para quem observa de fora, mas representam mudanças importantes para aquele jovem e sua família.
Receber um diagnóstico na adolescência não encerra as possibilidades. É o começo de uma compreensão mais clara sobre as necessidades de apoio e os caminhos que podem favorecer o desenvolvimento. Mais do que correr contra o tempo, precisamos aprender a investir melhor nele, com expectativas realistas, intervenções individualizadas e respeito à singularidade de cada pessoa autista.
Por Silvia Kelly Bosi, neuropsicopedagoga especialista em autismo e desenvolvimento infantil





