Campos eletromagnéticos em carros elétricos geram riscos? Especialistas respondem

Carros elétricos utilizam baterias de alta tensão, motores elétricos e uma série de sistemas eletrônicos para funcionar. Com o crescimento desse mercado, dúvidas sobre os campos eletromagnéticos gerados por esses veículos também começaram a ganhar espaço.

Segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), o Brasil registrou recordes recentes de vendas de modelos eletrificados, que já representam uma parcela crescente do mercado automotivo nacional.

Nesse cenário, a discussão envolve desde sistemas de recarga até recursos de conectividade, como Wi-Fi, Bluetooth e outros componentes eletrônicos presentes em muitos modelos modernos. Ao mesmo tempo, o tema se mistura a debates mais amplos sobre exposição cotidiana a campos eletromagnéticos, encontrados também em celulares, roteadores, redes elétricas e eletrodomésticos.

Para entender o que a ciência sabe hoje sobre o assunto, o Olhar Digital ouviu especialistas em física e engenharia automotiva, além de consultar informações de órgãos reguladores e entidades internacionais ligadas à radiação não ionizante e compatibilidade eletromagnética.

O que são campos eletromagnéticos não ionizantes?

Campos eletromagnéticos fazem parte da rotina moderna e estão presentes em celulares, roteadores Wi-Fi, eletrodomésticos, redes elétricas e veículos (elétricos ou não). A principal diferença entre eles está na frequência e na quantidade de energia envolvida.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), as chamadas radiações não ionizantes não possuem energia suficiente para ionizar átomos ou moléculas, diferentemente da radiação ionizante associada, por exemplo, a materiais radioativos e exames de raio X.

Campos eletromagnéticos fazem parte do cotidiano e estão presentes em dispositivos como celulares, roteadores Wi-Fi e aparelhos eletrônicos – Imagem: Net Vector / Shutterstock

Roberto “Pena” Spinelli, físico formado pela USP e colunista do Olhar Digital News, explica que sinais de celular e Wi-Fi funcionam de maneira diferente dos motores elétricos presentes nos veículos. “No caso do celular e do Wi-Fi, a gente está falando de radiofrequência. Aqui, o principal efeito físico possível é aquecimento”, afirmou.

Segundo ele, os limites internacionais de segurança são definidos justamente para evitar qualquer aquecimento relevante dos tecidos humanos. Já nos motores elétricos, o mecanismo é outro.

“Já no caso de baixas frequências, como nos motores de carros elétricos, o efeito é outro. Aqui não tem ‘onda esquentando’ nada. O motor gera um campo magnético ao redor dele que, ao variar, pode induzir pequenas correntes elétricas no corpo”, explicou.

O que gera campos eletromagnéticos em um carro elétrico

Os veículos elétricos concentram diferentes sistemas eletrônicos e elétricos operando ao mesmo tempo. Isso inclui tanto os componentes ligados à conectividade quanto os responsáveis pela movimentação do carro.

Segundo Fabio Delatore, professor das áreas de Sistemas de Controle e de Eletrônica Automotiva e Propulsão Elétrica do Instituto Mauá de Tecnologia (IMT), as fontes podem ser divididas em dois grupos principais.

“Podemos sucintamente dividir em, fontes oriundas do powertrain (inversor de frequência, a própria máquina elétrica, a baterias de alta tensão, o carregador de bordo e todo o cabeamento que interliga esses componentes) e fontes oriundas do sistema de infoentretenimento, representados pelos módulos de Wi-Fi, Bluetooth”, afirmou.

Sistemas eletrônicos, baterias e componentes de alta tensão fazem parte da arquitetura dos carros elétricos modernos – Imagem: Zigmunds Dizgalvis / Shutterstock

Apesar da presença desses sistemas, Delatore afirma que a engenharia automotiva utiliza diferentes mecanismos para reduzir emissões eletromagnéticas próximas dos ocupantes.

“A engenharia automotiva utiliza a técnica de blindagem eletromagnética (shielding), sendo os cabos de alta tensão revestidos por malhas metálicas e que são interligadas ao chassi do carro. Além disso, a própria arquitetura do carro ajuda uma vez que o cabeamento de alta tensão é roteado para longe dos ocupantes”, disse.

Os níveis encontrados são considerados seguros?

Segundo especialistas e entidades internacionais, sim.

A Comissão Internacional de Proteção contra Radiação Não Ionizante (ICNIRP) mantém diretrizes para exposição humana a campos elétricos e magnéticos em diferentes frequências. As recomendações são usadas mundialmente como referência regulatória.

Pena afirma que os níveis normalmente encontrados dentro de veículos elétricos ficam abaixo desses limites.

“Dentro de um carro elétrico, por exemplo, você pode ter campos magnéticos na casa de alguns microteslas, com picos que podem chegar a algo como 10 a 20 microteslas durante aceleração ou frenagem. Ainda assim, isso fica abaixo dos limites de segurança, que são da ordem de 200 microteslas para o público.”

A Organização Mundial da Saúde (OMS) também afirma que campos de baixa frequência estão presentes em diversas situações cotidianas, incluindo aparelhos domésticos e redes elétricas. Segundo a entidade, alguns equipamentos podem gerar campos magnéticos de algumas centenas de microteslas em distâncias muito próximas.

Normas internacionais estabelecem limites de exposição a campos eletromagnéticos em equipamentos e sistemas eletrônicos – Imagem: NewJadsada / Shutterstock

Delatore afirma que os veículos elétricos precisam cumprir requisitos de compatibilidade eletromagnética para serem homologados.

“Sim, rigorosamente dentro dos limites, pois são exigências que as montadoras precisam apresentar para que o veículo seja homologado e comercializado”, afirmou ao comentar os níveis de emissão dentro da cabine.

Carros a combustão também geram campos eletromagnéticos

Embora o debate recente tenha se concentrado nos veículos elétricos, carros convencionais também possuem diferentes fontes eletromagnéticas.

“Em termos de impacto à saúde, não há diferença, embora o carro elétrico opere com correntes e tensões muito mais altas, todo o seu sistema de isolamento é altamente eficiente. Um carro a combustão também é repleto de fontes eletromagnéticas: tem diversos módulos eletrônicos de controle (ECUs), o gerador de energia (alternador), o sistema de ignição (velas e bobinas) e igualmente, o sistema de infoenterteinament”, afirmou Delatore.

A diferença principal está na arquitetura elétrica e na potência dos sistemas envolvidos, especialmente por causa das baterias de alta tensão utilizadas nos modelos eletrificados.

O carregamento rápido aumenta as emissões?

Os campos eletromagnéticos também variam durante o carregamento do veículo, especialmente em sistemas de recarga rápida. Segundo Delatore, isso acontece porque os componentes ativos mudam durante o processo.

“Em movimento, os protagonistas são a máquina elétrica, o inversor e a bateria de alta tensão. Durante o carregamento, saem a máquina e o inversor, entrando o carregador de bordo, mantendo a bateria”, explicou.

Ele afirma que carregadores rápidos em corrente contínua (DC) podem gerar campos mais intensos próximos dos cabos e estações por causa da potência envolvida.

Sistemas de recarga rápida utilizam correntes mais altas, mas seguem padrões internacionais de segurança elétrica e eletromagnética – Imagem: Es sarawuth / Shutterstock

“Em função da maior potência envolvida, é de se esperar que o campo magnético gerado ao redor do cabo de recarga e do totem da estação sejam maiores.”

Ainda assim, segundo o professor, os níveis permanecem dentro dos limites internacionais de segurança.

“Contudo, esses cabos também possuem blindagens para conter essas emissões e, dentro do carro, ou mesmo em pé ao lado do cabo durante o carregamento rápido, as emissões continuam restritas às margens de segurança estabelecidas pelas normas internacionais.

Existe evidência científica de risco à saúde?

Até o momento, não há evidência científica consolidada ligando a exposição cotidiana a campos eletromagnéticos não ionizantes a danos à saúde nos níveis encontrados em carros elétricos, celulares ou redes Wi-Fi.

“Hoje, o estado da ciência é relativamente tranquilo em relação a isso. Para os níveis de exposição que a gente encontra no dia a dia — celular, Wi-Fi, carros elétricos, rede elétrica — não existe evidência científica consolidada de que isso cause dano à saúde”, afirmou Pena.

O físico ressalta que pesquisas envolvendo campos eletromagnéticos existem há décadas, incluindo estudos sobre ambientes domésticos e ocupacionais. Alguns trabalhos antigos chegaram a apontar correlações estatísticas entre campos magnéticos de baixa frequência e certas doenças, como leucemia infantil.

A própria OMS afirma que estudos epidemiológicos identificaram possíveis associações estatísticas em alguns cenários de exposição prolongada, mas destaca que os mecanismos biológicos envolvidos permanecem incertos.

Segundo Pena, os resultados nunca estabeleceram uma relação causal consistente.

“Quando a gente olha o conjunto completo da evidência, incluindo estudos mais recentes e melhor controlados, o consenso atual é que não há uma relação causal entre exposição a campos eletromagnéticos não ionizantes e doenças”, disse.

Pena também cita exames de ressonância magnética como exemplo para contextualizar a intensidade desses campos. Segundo ele, esses equipamentos médicos trabalham com campos magnéticos muito mais intensos do que os encontrados em carros elétricos e, ainda assim, não envolvem radiação ionizante.

Exames de ressonância magnética utilizam campos magnéticos muito mais intensos do que os encontrados em veículos elétricos – Imagem: VesnaArt / Shutterstock

Ele também observa que carros elétricos ainda são relativamente recentes, o que significa que não existem estudos epidemiológicos de décadas focados exclusivamente nesses veículos.

“Até o momento, não existe nenhuma evidência científica que sugira que esses campos tenham algum efeito novo ou diferente do que já é conhecido.”

O que dizem Anatel, Inmetro e Senatran

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) informou ao Olhar Digital que dispositivos presentes nos veículos, como Wi-Fi, Bluetooth, sensores e sistemas de comunicação, precisam seguir requisitos técnicos e limites de exposição humana a campos eletromagnéticos para serem homologados no Brasil.

Segundo a agência, os parâmetros seguem diretrizes internacionais da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da ICNIRP.

A Anatel destacou, porém, que sua atuação envolve os equipamentos de telecomunicações individualmente, e não a avaliação do veículo como um sistema completo.

“O fabricante ou montadora só pode instalar nos veículos a serem comercializados os produtos de telecomunicações que foram objeto de avaliação e homologação pela Anatel”, informou a agência.

Já o Inmetro afirmou que não possui atribuição legal para certificar ou fiscalizar níveis de emissão de campos eletromagnéticos em veículos elétricos.

A Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) informou que atualmente não existem requisitos específicos de compatibilidade eletromagnética para homologação de veículos elétricos no Brasil.

Segundo o órgão, fabricantes e importadores podem apresentar documentação técnica baseada em normas internacionais amplamente adotadas pela indústria automotiva, especialmente relacionadas à segurança elétrica e sistemas eletrônicos embarcados.

A Senatran também afirmou que parâmetros ligados à emissão eletromagnética no interior da cabine não fazem parte, atualmente, das exigências específicas aplicáveis ao processo de homologação veicular no país.

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