Basta alguns minutos rolando o feed para encontrar vídeos de “antes e depois”, corpos cada vez mais magros e relatos de perdas de peso em pouco tempo. Nas redes sociais, o emagrecimento voltou a ocupar um lugar de destaque — e, muitas vezes, aparece menos como uma questão de saúde e mais como sinal de disciplina, sucesso e até pertencimento.
A pressão não é exatamente nova. No início dos anos 2000, passarelas, revistas e televisão ajudaram a transformar a magreza extrema em ideal de beleza. Mais de duas décadas depois, esse padrão reaparece com outra velocidade e alcance: agora, algoritmos repetem imagens, tendências e transformações corporais diariamente, enquanto as canetas emagrecedoras entram nessa equação como uma ferramenta capaz de acelerar resultados.
A agonorexia, termo que ainda não constitui um diagnóstico médico oficial, vem sendo usado para descrever situações em que a supressão extrema do apetite provocada por medicamentos como os agonistas de GLP-1 se mistura a uma busca excessiva pela perda de peso. “O problema surge quando essas terapias passam a ser utilizadas para atender expectativas estéticas irreais ou padrões corporais incompatíveis com a saúde”, alerta a endocrinologista e metabologista Elaine Dias JK.
O que é agonorexia e por que o termo preocupa?
A agonorexia não aparece nos manuais diagnósticos como um transtorno oficialmente reconhecido. O termo descreve situações em que a ação dos medicamentos sobre fome, saciedade e recompensa cerebral se combina com uma busca excessiva por emagrecimento.
Elaine explica que esse quadro pode envolver a chamada supressão hedônica da alimentação. Na prática, a comida deixa de despertar interesse ou prazer. “Pacientes com histórico de insatisfação corporal, rigidez cognitiva ou até transtornos alimentares latentes podem encontrar nesses medicamentos uma ferramenta para sustentar uma restrição alimentar extrema”, detalha.
Outro sinal de atenção é a dependência psicológica. Mesmo depois de atingir um peso saudável, algumas pessoas sentem medo intenso de interromper a medicação e engordar novamente. Nesse ponto, o remédio pode assumir o lugar de uma “âncora emocional”, segundo a médica.
Agonorexia é o novo retrato de uma velha obsessão pela magreza – Crédito: FreePik
Quais riscos o uso inadequado das canetas emagrecedoras pode trazer?
A perda acelerada de peso também pode esconder outro problema: a redução de massa muscular. Elaine alerta para a chamada sarcopenia oculta, quando parte do peso perdido corresponde aos músculos.
“Saúde não significa apenas pesar menos”, reforça a endocrinologista. A redução excessiva de massa muscular pode comprometer força, desempenho funcional, composição corporal e metabolismo. Por isso, o acompanhamento médico e nutricional deve fazer parte do tratamento com medicamentos de GLP-1 e GIP.
Como usar medicamentos para emagrecimento com mais segurança?
O alerta não transforma semaglutida e tirzepatida em vilãs. A especialista reforça que esses medicamentos oferecem benefícios importantes quando existe indicação clínica e acompanhamento profissional. O principal cuidado é não tratar a ausência total de fome como sinônimo de sucesso. Dose, evolução do peso, alimentação e preservação da massa muscular precisam de acompanhamento. Mudanças na relação com a comida, medo excessivo de engordar e restrição alimentar intensa também merecem atenção.
Para Elaine, o objetivo dessas terapias é melhorar a saúde metabólica e a qualidade de vida, não eliminar completamente a fome. Quando o emagrecimento passa a cobrar um preço físico ou emocional, a prioridade deve voltar a ser o cuidado com a saúde, e não apenas o número que aparece na balança.
Resumo: A agonorexia descreve uma supressão excessiva do apetite associada ao uso inadequado de medicamentos para emagrecer. O quadro pode envolver restrição alimentar intensa, medo de recuperar peso e perda de massa muscular. Semaglutida e tirzepatida oferecem benefícios importantes quando usadas com indicação e acompanhamento profissional.
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