Por Dr. Leandro de Paula Gregório – Cirurgião Plástico, Membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica
Durante muito tempo, a cirurgia plástica foi associada à transformação. O paciente procurava o consultório querendo mudar o nariz, levantar as pálpebras, esticar a pele, aumentar uma região ou diminuir outra. Quanto mais perceptível fosse a mudança, maior parecia ser a sensação de que o procedimento havia “valido a pena”.
Acredito que estamos vivendo uma mudança importante nessa lógica.
Hoje, um dos resultados mais sofisticados que podemos alcançar na cirurgia plástica é justamente aquele que não parece cirurgia plástica.
É quando alguém encontra o paciente depois de uma blefaroplastia ou de um lifting facial e pergunta se ele descansou, se emagreceu, se voltou de férias ou simplesmente comenta: “Você está ótima”. Percebe-se que existe alguma coisa diferente, mas é difícil identificar exatamente o quê.
Para mim, esse é o novo luxo da cirurgia plástica: melhorar sem denunciar o procedimento e rejuvenescer sem apagar a identidade.
Estamos cansando dos rostos padronizados?
Nos últimos anos, acompanhamos uma fase da estética marcada pela repetição de determinados padrões. Lábios volumosos, maçãs do rosto muito projetadas, mandíbula extremamente marcada, sobrancelhas elevadas e alterações que, quando combinadas, acabaram fazendo pessoas diferentes adquirirem características semelhantes.
As redes sociais contribuíram para esse fenômeno. Filtros, aplicativos de edição e referências estéticas reproduzidas milhares de vezes passaram a criar uma espécie de rosto ideal.
Mas existe uma questão fundamental: um rosto bonito não precisa ser um rosto padronizado.
Aquilo que muitas vezes chamamos de imperfeição pode ser justamente o que torna uma pessoa reconhecível. O formato dos olhos, a relação entre nariz e boca, a maneira como as sobrancelhas se posicionam, o contorno facial e até determinadas assimetrias fazem parte da identidade.
Quando tratamos o envelhecimento tentando enquadrar todos os pacientes na mesma fórmula, corremos o risco de não rejuvenescer aquela pessoa, mas de transformá-la em outra.
Rejuvenescer não significa voltar aos 20 anos
Essa talvez seja uma das conversas mais importantes que tenho com pacientes.
Uma pessoa de 50 ou 60 anos não precisa parecer ter 25 para apresentar um ótimo resultado. Na realidade, quando essa é a expectativa, existe grande chance de caminharmos para excessos.
O envelhecimento facial acontece em diferentes planos. A pele muda, existe perda e redistribuição de volume, ligamentos e tecidos sofrem alterações, estruturas podem perder sustentação e determinadas regiões passam a apresentar excesso de pele.
Por isso, rejuvenescer não deveria significar simplesmente “esticar”.
O objetivo é compreender o que mudou naquele rosto ao longo do tempo e decidir o que realmente precisa ser tratado.
É muito diferente.
A blefaroplastia é um ótimo exemplo
As pálpebras mostram claramente como pequenas alterações podem produzir grande impacto na aparência.
Com o envelhecimento, pode ocorrer excesso de pele nas pálpebras superiores e bolsas nas inferiores. O paciente começa a ouvir frases como “você está cansado?” mesmo depois de uma boa noite de sono.
Uma blefaroplastia bem indicada pode melhorar esse aspecto sem mudar o formato natural dos olhos.
Esse detalhe é fundamental.
Meu objetivo não deveria ser entregar ao paciente “um olho novo”. Deveria ser fazer com que os olhos voltem a aparecer de maneira mais descansada e harmônica, preservando aquilo que sempre pertenceu àquela pessoa.
Quando alguém olha para o resultado e reconhece imediatamente o mesmo olhar, apenas mais leve, considero isso um excelente sinal.
O lifting também mudou
Ainda existe no imaginário popular a imagem do lifting como uma cirurgia que deixa o rosto excessivamente esticado.
E é compreensível que muitos pacientes tenham medo disso.
Mas um lifting facial contemporâneo não deveria ter como objetivo simplesmente puxar a pele.
O envelhecimento envolve estruturas mais profundas. Portanto, o planejamento precisa considerar sustentação, reposicionamento dos tecidos, contorno da mandíbula, pescoço, distribuição de volume e qualidade da pele.
Quando se tenta resolver tudo apenas tensionando a pele, o resultado pode ficar artificial.
A naturalidade depende justamente de entender a anatomia e reposicionar aquilo que mudou, em vez de simplesmente tentar apagar cada marca do tempo.
O melhor resultado preserva a expressão
Existe outra coisa que nenhuma fotografia de antes e depois consegue mostrar completamente: movimento.
Nós não vivemos parados.
Sorrimos, falamos, franzimos a testa, apertamos os olhos, demonstramos surpresa, tristeza e alegria. A identidade facial também está nesses movimentos.
Por isso, quando penso em rejuvenescimento, não penso apenas em como aquele paciente ficará em uma fotografia. Penso em como ele continuará se expressando.
Um rosto sem nenhuma marca não é necessariamente um rosto mais jovem. E um rosto completamente transformado não é necessariamente um rosto melhor.
Envelhecer modifica o rosto, mas também constrói identidade.
Meu papel como cirurgião plástico não é eliminar cada sinal de que os anos passaram. É identificar aquilo que incomoda o paciente, compreender sua anatomia, avaliar o que pode ser melhorado e estabelecer limites seguros e realistas.
Existe uma diferença enorme entre parecer mais jovem e tentar parecer outra pessoa.
Depois de uma era de transformações muito evidentes, começa a ganhar força uma estética mais silenciosa, individualizada e menos preocupada em seguir um modelo único de beleza.
E, para mim, esse é um avanço.
Porque o melhor elogio depois de uma cirurgia plástica não precisa ser: “Que cirurgia você fez?”. Mas sim: “Você está muito bem.” E ninguém conseguir explicar exatamente por quê.





