Um artigo científico publicado na revista Science Advances revela que os incêndios florestais liberam um tipo de poluição invisível capaz de causar milhares de mortes todos os anos nos Estados Unidos. Além da fumaça densa e das cinzas vistas durante grandes queimadas, os pesquisadores identificaram que o ozônio troposférico também representa uma ameaça crescente para a saúde humana.
Quando se fala em poluição causada pelo fogo, a maioria das pessoas pensa apenas na fumaça escura que cobre cidades e deixa o céu avermelhado. Em regiões atingidas por incêndios, moradores costumam ser orientados a permanecer em casa ou usar máscaras para evitar problemas respiratórios. Porém, os danos vão além do que os olhos conseguem enxergar.
O novo estudo mostra que a fumaça das queimadas favorece a formação de ozônio troposférico, um dos principais componentes da poluição atmosférica. Diferente da camada de ozônio localizada na alta atmosfera, que protege a Terra da radiação solar, esse ozônio se forma perto da superfície e pode ser prejudicial aos pulmões e ao sistema cardiovascular.
Um grande número de incêndios florestais atingiu o Oregon, nos EUA, entre agosto e setembro de 2020, com imagens registradas por satélites da NASA – Crédito: NASA
Mudanças climáticas intensificaram os incêndios florestais nos EUA
Nas últimas décadas, as mudanças climáticas intensificaram os incêndios florestais nos Estados Unidos. O aumento das temperaturas e os períodos mais longos de seca ajudaram a ampliar as áreas queimadas. Segundo os pesquisadores, desde os anos 1990, a extensão atingida pelo fogo praticamente dobrou no país, elevando também a quantidade de poluentes lançados na atmosfera.
Grande parte das pesquisas anteriores focava nas chamadas partículas PM2,5, consideradas perigosas para a saúde. Essas partículas microscópicas surgem da combustão de árvores, vegetação e outros materiais queimados. Por serem extremamente pequenas, conseguem penetrar profundamente nos pulmões e até atingir a corrente sanguínea.
A exposição prolongada ao PM2,5 pode agravar doenças respiratórias, problemas cardíacos e crises de asma. Em alguns casos, essas partículas também provocam inflamações capazes de danificar diretamente o tecido pulmonar. Por isso, elas se tornaram um dos principais indicadores usados para medir os efeitos da fumaça de incêndios na saúde pública.
No entanto, os cientistas destacam que o ar contaminado pelas queimadas contém muitos outros compostos perigosos. Entre eles está o ozônio troposférico, formado quando gases liberados pelo fogo reagem com a luz solar. Diferente das partículas de fumaça, o ozônio não é emitido diretamente pelas chamas, mas aparece depois dessas reações químicas na atmosfera.
O satélite Landsat 8, da NASA, registrou o incêndio Soberanes perto da costa da Califórnia horas após o início, em 22 de julho de 2016. Sete dias depois, a fumaça já cobria quase toda a região – Crédito: NASA
O pesquisador Minghao Qiu explicou ao site Space.com que o ozônio é considerado um “poluente secundário”. Isso significa que ele depende de uma combinação de fatores para surgir, incluindo óxidos de nitrogênio, compostos orgânicos voláteis e radiação solar. Por ser invisível, muitas vezes sua presença passa despercebida.
Pesquisa analisou 20 anos de dados a NASA e a NOAA
Para entender os impactos desse poluente, os pesquisadores analisaram quase duas décadas de dados de satélites, medições atmosféricas e registros meteorológicos – dados coletados pela NASA e pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA). Mesmo sem ser visível a olho nu, o ozônio pode ser detectado por instrumentos que observam a radiação ultravioleta presente na atmosfera.
Os resultados mostraram que algumas regiões dos Estados Unidos apresentam maior risco de acumular ozônio proveniente da fumaça de incêndios. Estados como Texas, Louisiana, Arkansas, Mississippi e Flórida apareceram entre os mais vulneráveis aos efeitos desse tipo de poluição.
Segundo as estimativas do estudo, o ozônio ligado às queimadas estaria associado a cerca de 2.045 mortes extras por ano nos Estados Unidos. O número corresponde a aproximadamente 16% de todas as mortes relacionadas à fumaça de incêndios florestais no país.
Os cientistas também observaram um crescimento acelerado desse problema. Em 2006, as mortes associadas ao ozônio gerado pelos incêndios eram estimadas em cerca de 100 casos anuais. Já em 2023, o total se aproximou de 10 mil mortes, indicando uma piora significativa no impacto da poluição atmosférica.
Leia mais:
Fogo recorde na Amazônia em 2024 triplica emissões de carbono
Fumaça de incêndios florestais pode afetar fertilidade masculina, diz estudo
Drone criado no Brasil usa IA para detectar incêndios florestais
De acordo com os pesquisadores, esse avanço ameaça reduzir os efeitos positivos das políticas ambientais criadas para diminuir a poluição do ar. Nas últimas décadas, leis de controle de emissões ajudaram a reduzir os níveis gerais de ozônio nos Estados Unidos. Porém, o aumento das queimadas começa a reverter parte desse progresso.
Os pesquisadores também alertam que os incêndios liberam metais pesados e outros compostos tóxicos ainda pouco estudados. Segundo a equipe, ainda não se sabe exatamente como a mistura desses poluentes afeta a saúde humana a longo prazo.
Os autores afirmam que futuras pesquisas podem ser prejudicadas por cortes no financiamento científico nos Estados Unidos.
O post Vilão “invisível” dos incêndios florestais causa milhares de mortes por ano nos EUA apareceu primeiro em Olhar Digital.





