A SpaceX se prepara para realizar sua oferta pública inicial (IPO) nesta sexta-feira (12) – o primeiro passo para abrir capital e vender ações nas bolsas de valores. A empresa fundada por Elon Musk deve estrear com uma avaliação de mercado próxima de US$ 1,77 trilhão, patamar que a colocaria entre as mais valiosas do mundo.
A operação também tem potencial para entrar para a história pelo tamanho. A SpaceX precificou a ação em US$ 135, arrecadando US$ 75 bilhões – o maior volume já captado em uma oferta inicial nos Estados Unidos.
O interesse dos investidores tem sido intenso: segundo a agência Reuters, a demanda pelas ações teria superado os US$ 250 bilhões. O volume supera com folga o valor que a companhia pretendia levantar, entre três e quatro vezes o tamanho planejado.
O entusiasmo do mercado reflete não apenas a posição dominante da SpaceX no setor espacial, mas também a percepção de que a empresa está se tornando muito mais do que uma fabricante de foguetes. Nos documentos apresentados aos investidores, a companhia destaca oportunidades ligadas à inteligência artificial, conectividade global e infraestrutura computacional baseada no espaço.
Os recursos captados devem financiar a expansão dessas iniciativas. Entre elas está o desenvolvimento de data centers orbitais, uma aposta para atender ao crescimento acelerado da demanda por capacidade computacional impulsionada pela inteligência artificial.
De startup arriscada à líder da indústria espacial
A trajetória da SpaceX começou em 2002, quando Elon Musk decidiu criar uma empresa para reduzir os custos de acesso ao espaço. A ambição era desenvolver tecnologias capazes de tornar os lançamentos espaciais mais baratos e frequentes, abrindo caminho para projetos mais ousados no futuro, incluindo missões tripuladas a Marte.
Nos primeiros anos, a empresa enfrentou dificuldades financeiras e falhas sucessivas em testes de foguetes. O cenário começou a mudar após contratos firmados com a NASA e o avanço de tecnologias próprias de lançamento.
O principal diferencial da SpaceX foi a aposta na reutilização de foguetes, algo considerado inviável por muitos especialistas durante décadas. Ao conseguir recuperar e reutilizar partes importantes dos veículos espaciais, a companhia reduziu significativamente os custos das missões e mudou a lógica econômica do setor.
Ao longo dos anos, a empresa consolidou uma posição dominante no mercado de lançamentos. Atualmente, responde por uma parcela significativa das cargas colocadas em órbita e opera uma das maiores constelações de satélites do mundo por meio do serviço de internet via satélite Starlink.
A companhia também segue investindo na Starship, considerada peça central dos planos de Musk para missões espaciais de longa duração e eventual colonização de Marte.
Essa combinação de fatores transformou a SpaceX em uma das empresas privadas mais valiosas do planeta e ajudou a criar expectativa em torno de sua estreia na bolsa. O IPO também deve gerar ganhos expressivos para investidores de longa data e milhares de funcionários que receberam ações como parte da remuneração ao longo dos anos.
O que muda com o IPO da SpaceX?
A SpaceX estreará na Nasdaq e se tornará a sétima mais valiosa entre as companhias listadas nos EUA. O recorde de IPO anterior pertencia à Saudi Aramco, em dezembro de 2019, com captação de US$ 25,6 bilhões e uma avaliação de US$ 1,71 trilhão.
Para Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos, o movimento mostra que o mercado continua disposto a investir muito dinheiro em empresas que combinam “infraestrutura estratégica, tecnologia e potencial de crescimento exponencial”. Isso porque a SpaceX tem a Starlink, de conectividade via satélite, e a xAI, de inteligência artificial, em seu portfólio.
Para ele, a companhia já não é mais apenas “uma empresa de lançamentos espaciais”.
Por outro lado, há um temor em relação à supervalorização das ações, principalmente em um cenário em que as promessas de Musk – como os data centers orbitais – ainda estão longe de virar realidade.
Kenneth Corrêa, especialista em tecnologias emergentes, palestrante internacional e professor da FGV, defende que não é bem assim. Ele concorda que há um certo “efeito Elon Musk” no mercado, já que o sucesso da empresa depende da crença em promessas que ainda precisam se provar.
No entanto, há outro fator importante em jogo: inteligência artificial. A ideia é unir as expertises da SpaceX no setor aeroespacial, da Starlink em satélites e conectividade, e da xAI em IA para operar infraestrutura fora da Terra.
Enquanto gigantes como AWS, Azure e Google Cloud rodam seus supercomputadores presos ao chão, a SpaceX aposta em ser a infraestrutura definitiva da era cognitiva, operando do espaço. É uma aposta de altíssimo risco e execução complexa, mas o mercado de tecnologia atual prefere pagar muito caro pelo domínio do futuro do que focar apenas no lucro do trimestre passado.
Kenneth Corrêa, especialista em tecnologias emergentes, palestrante internacional e professor da FGV
Já Boragini acredita que, justamente pela SpaceX apostar em tecnologias que ainda estão em desenvolvimento, o valor de mercado não tem a ver apenas com o que a empresa entrega agora – mas com o que pode entregar no futuro.
A discussão não é sobre a qualidade da companhia, uma vez que ela é uma das empresas mais inovadoras do mundo. O debate está em saber quanto desse crescimento futuro já está embutido no preço atual [do IPO].
Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos
O movimento também reforça a crescente aproximação entre a indústria espacial e o mercado de tecnologia. Se durante muitos anos o setor foi associado principalmente a governos e programas científicos, hoje ele é cada vez mais visto como uma oportunidade comercial de grande escala. E a entrada na bolsa de valores comprova a necessidade de investimentos cada vez mais altos.
E onde fica Elon Musk nessa equação?
A SpaceX é uma empresa privada (por enquanto). Ou seja, as decisões são tomadas visando benefício próprio, algo que permitiu apostar alto em tecnologias ousadas ou que ainda nem se tornaram viáveis.
Com a abertura de capital e a venda de ações, a história muda.
Boragini explica que a SpaceX terá que conviver com exigências mais rigorosas de governança, transparência e prestação de contas, além de ser mais pressionada para ter resultados financeiros positivos. “A empresa ganha acesso permanente aos mercados de capital, mas ela perde parte da flexibilidade que ela tem hoje com uma companhia fechada”, declarou.
Nesse caso, também era de se esperar que a influência de Elon Musk diminuísse. De acordo com Corrêa, não é o que vai acontecer. Ele explicou que, ao contrário de aberturas de capital tradicionais, o IPO da SpaceX foi estruturado de uma forma que o bilionário mantenha mais de 85% de poder de voto.
“Na prática, a governança servirá como um escudo para a estratégia de longo prazo. Com acesso a dezenas de bilhões de dólares do mercado, a SpaceX terá liberdade quase total para executar sua visão de infraestrutura sem se curvar à pressão por lucros imediatos”, afirmou.
A expectativa de Boragini é que, com a forte associação de Musk à SpaceX, a empresa deve ganhar ainda mais protagonismo.
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