Por que algumas cirurgias plásticas ficam óbvias e outras ninguém percebe?

Por Dr. Leandro de Paula Gregório – Cirurgião Plástico, Membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica

Uma das frases que mais escuto no consultório é: “Doutor, eu quero fazer, mas não quero que ninguém perceba”. Parece contraditório procurar uma cirurgia plástica e, ao mesmo tempo, desejar que ela passe despercebida. Mas não é. Na maioria das vezes, o paciente não quer esconder que se cuida. O que ele não quer é perder suas características e passar a ser reconhecido pelo procedimento que realizou.

E talvez esteja justamente aí uma das maiores mudanças da cirurgia plástica contemporânea: um bom resultado não deveria fazer as pessoas olharem primeiro para a cirurgia. Deveria fazê-las olhar para a pessoa.

Quando alguém reencontra um paciente depois de uma cirurgia facial e pergunta se ele emagreceu, descansou ou voltou de férias, muitas vezes conseguimos aquilo que buscávamos: uma mudança perceptível, mas que continua coerente com aquele rosto.

Naturalidade, porém, não acontece por acaso. Ela depende de anatomia, proporção, indicação correta, planejamento, técnica e também da maneira como cada organismo cicatriza.

Não existe um rosto padrão

O primeiro ponto é entender que cirurgia plástica não deveria ser uma tentativa de encaixar pessoas diferentes dentro do mesmo padrão estético.

Cada rosto possui uma combinação própria de ossos, músculos, compartimentos de gordura, ligamentos e pele. A posição das sobrancelhas, o formato dos olhos, a projeção do queixo, o contorno mandibular, o nariz e a relação entre todas essas estruturas constroem uma identidade.

Quando modificamos uma região sem considerar o conjunto, podemos criar uma característica que chama atenção justamente porque deixou de conversar com o restante da face.

É por isso que uma mudança tecnicamente bem executada, mas desproporcional ao restante da anatomia, pode parecer artificial.

Na minha visão, naturalidade não é ausência de mudança. É uma mudança que continua pertencendo àquela pessoa.

O exagero é mais facilmente identificado

Nosso cérebro é extremamente eficiente em reconhecer rostos e proporções humanas. Pequenas alterações podem passar despercebidas conscientemente, mas quando determinada característica rompe muito com aquilo que esperamos encontrar em uma face, ela tende a chamar atenção.

É o que pode acontecer com volumes excessivos, tensão exagerada dos tecidos, mudanças desproporcionais ou alterações que modificam demais os traços individuais.

Isso ajuda a explicar por que alguns resultados são imediatamente associados a uma intervenção estética.

Mas existe um equívoco importante: buscar naturalidade não significa necessariamente fazer pouco.

Às vezes, um paciente apresenta alterações importantes e precisa de uma intervenção maior para que o resultado final seja harmonioso. Em outros casos, uma mudança pequena já é suficiente.

O segredo não está na quantidade de cirurgia. Está na indicação adequada para aquela anatomia.

Na face, rejuvenescer não deveria significar mudar de rosto

Esse princípio fica especialmente evidente nas cirurgias de rejuvenescimento facial.

Envelhecer não significa apenas ganhar rugas. Ao longo dos anos, ocorrem mudanças na pele, nos compartimentos de gordura, nos ligamentos, nos músculos e até na estrutura óssea. O rosto passa por um processo tridimensional.

Por isso, simplesmente “esticar a pele” não significa necessariamente rejuvenescer.

O planejamento moderno procura compreender quais estruturas se modificaram e como reposicioná-las de maneira coerente. O objetivo não deveria ser criar um rosto diferente, mas recuperar determinadas relações anatômicas que foram se alterando com o tempo.

Costumo pensar que o paciente precisa continuar se reconhecendo no espelho. Ele pode parecer mais descansado, mais jovem ou ter um contorno diferente, mas sua identidade deve permanecer ali.

Existe ainda um elemento sobre o qual o cirurgião não possui controle absoluto: a cicatrização.

Podemos planejar cuidadosamente a posição das incisões e utilizar técnicas para deixá-las em regiões menos perceptíveis, mas cada organismo responde de uma maneira.

Genética, qualidade da pele, idade, tabagismo, exposição solar, tensão sobre a cicatriz, cuidados no pós-operatório e características individuais podem interferir no processo.

Por isso, quando falamos em resultado natural, precisamos falar também sobre tempo.

Uma cirurgia não termina quando o paciente sai do centro cirúrgico. Edema, cicatrização e acomodação dos tecidos fazem parte de um processo que pode levar meses. Avaliar precocemente um resultado como definitivo é um erro bastante comum.

O que altera o resultado final de uma cirurgia plástica

O aspecto menos visível de um resultado natural seja justamente tudo aquilo que aconteceu antes de entrar no centro cirúrgico.

Uma boa consulta envolve entender a anatomia, ouvir o que incomoda o paciente, identificar o que pode ser tratado e, principalmente, estabelecer aquilo que não deve ser modificado.

Também exige alinhar expectativas.

Fotografias de celebridades e referências das redes sociais podem ajudar o paciente a explicar aquilo de que gosta, mas não devem funcionar como um catálogo de partes do corpo. Não existe cirurgia capaz de transportar a anatomia de uma pessoa para outra.

Em alguns casos, inclusive, a melhor decisão médica pode ser não operar ou explicar que determinada expectativa não pode ser atingida de maneira segura e natural.

Quando ninguém percebe exatamente o que foi feito

Existe uma diferença importante entre uma cirurgia imperceptível e uma cirurgia cujo resultado parece natural.

O objetivo não é necessariamente fazer uma transformação que ninguém note. Muitas cirurgias produzem mudanças evidentes e desejadas. O que buscamos é evitar que o procedimento se torne a característica predominante daquela pessoa.

Quando amigos percebem que algo melhorou, mas não conseguem apontar imediatamente o que foi feito, normalmente existe uma integração maior entre o resultado e a anatomia original.

No final, acredito que essa seja uma boa definição de naturalidade na cirurgia plástica: não apagar características, não perseguir padrões e não transformar o procedimento em protagonista.

A cirurgia pode mudar bastante. Só não precisa fazer o paciente deixar de parecer ele mesmo.