Avaliar é ir além dos instrumentos: compreender a criança em sua integralidade

Quando uma família procura uma avaliação para uma criança, quase sempre existe uma preocupação por trás dessa decisão. Pode ser uma dificuldade na fala, um atraso motor, alterações de comportamento, dificuldades de aprendizagem, pouca interação social ou alguma percepção da família ou da escola de que o desenvolvimento não está acontecendo como esperado.

Essa queixa é importante, mas não deve determinar sozinha todo o olhar sobre a criança.

Costumo dizer que a queixa é o ponto de partida, e não o ponto de chegada da avaliação.

Avaliar uma criança não significa apenas aplicar instrumentos, preencher protocolos ou observá-la durante algumas sessões. A avaliação do desenvolvimento infantil precisa ser um processo mais amplo, que reúna informações objetivas, observação clínica, história de vida e, principalmente, o contexto no qual aquela criança está inserida.

A partir daquilo que motivou a avaliação, é necessário construir um percurso individualizado, escolhendo estratégias, instrumentos e situações de observação que realmente ajudem a compreender o que está acontecendo.

E, nesse processo, existe algo que não pode ser perdido de vista: a criança é muito mais do que a dificuldade que levou sua família até o consultório.

A criança precisa ser compreendida em seu contexto

Nenhuma criança se desenvolve isoladamente. Ela está inserida em uma família, frequenta uma escola, convive com outras pessoas e vive em determinado contexto social e cultural. Tudo isso influencia, de diferentes maneiras, suas experiências e a construção de suas habilidades.

Por isso, avaliar também significa ampliar o olhar.

É importante conhecer a história da gestação e do nascimento, os primeiros anos de vida, a aquisição dos marcos do desenvolvimento, a rotina, as oportunidades de interação e estímulo, as relações familiares, as experiências escolares, a forma de brincar, a comunicação, a autonomia e a participação da criança nos diferentes ambientes.

Essas informações ajudam a compreender não apenas o que a criança consegue ou ainda não consegue fazer, mas também em quais situações determinada habilidade aparece, quais apoios ela precisa e quais fatores podem estar favorecendo ou dificultando seu desenvolvimento.

A escola também pode revelar muito

A observação da criança no ambiente escolar é um recurso complementar que considero muito importante.

No consultório, geralmente estamos diante de um ambiente mais estruturado, com estímulos selecionados e, muitas vezes, atenção individualizada. Na escola, as exigências são outras.

A criança precisa permanecer em grupo, dividir a atenção do adulto, acompanhar comandos coletivos, lidar com barulhos e diferentes estímulos, esperar sua vez, iniciar e terminar atividades, comunicar suas necessidades, interagir com os colegas e responder às demandas pedagógicas.

Observar como ela funciona nesse ambiente pode trazer informações que não apareceriam da mesma maneira durante uma avaliação individual.

Mas é importante lembrar: a observação escolar também não deve ser analisada isoladamente. Ela é mais uma peça de um conjunto de informações que precisa ser integrado ao restante da avaliação.

Desenvolvimento infantil não cabe em uma única habilidade

Uma avaliação ampla precisa considerar diferentes áreas do desenvolvimento: socialização, linguagem e comunicação, cognição, autonomia, motricidade, comportamento adaptativo e habilidades socioemocionais, entre outras que possam ser relevantes para cada criança.

Esses aspectos não funcionam como compartimentos separados.

Uma dificuldade motora, por exemplo, pode limitar a exploração do ambiente e reduzir oportunidades de aprendizagem. Uma dificuldade de comunicação pode gerar frustração e aparecer, em determinados contextos, por meio de comportamentos que preocupam os adultos.

É justamente por isso que precisamos evitar uma leitura fragmentada.

Não estamos avaliando apenas uma habilidade. Estamos tentando compreender como diferentes habilidades se relacionam e como a criança funciona no mundo.

Um resultado numérico não conta toda a história

Os instrumentos padronizados são recursos importantes. Eles ajudam a organizar informações, estabelecer parâmetros, comparar determinados desempenhos e identificar aspectos que merecem uma investigação mais aprofundada.

Mas nenhum resultado numérico, sozinho, conta a história de uma criança.

É preciso entender como ela chegou àquele resultado. Quais estratégias utilizou? Precisou de ajuda? Conseguiu manter a atenção? Compreendeu as instruções? Como reagiu diante de uma dificuldade ou de um erro? Como se comunicou? E, principalmente, aquele desempenho é parecido com o que observamos em casa e na escola?

É nesse encontro entre os dados quantitativos e qualitativos que a avaliação ganha profundidade.

Eu não avalio apenas aquilo que a criança faz diante de um instrumento. Quero compreender como ela funciona, aprende, se comunica, participa e responde às demandas nos diferentes contextos da sua vida.

Avaliar também é apontar caminhos

Avaliar não deveria significar apenas procurar uma resposta para a pergunta: “O que essa criança tem?”

Uma avaliação bem conduzida precisa ajudar a responder outras questões tão importantes quanto essa: quem é essa criança? Como ela está se desenvolvendo? Quais habilidades já estão consolidadas? Quais estão emergindo? Quais são suas principais dificuldades? De quais apoios ela precisa neste momento? E como podemos favorecer seus próximos passos?

Esse olhar faz diferença não apenas para o profissional, mas principalmente para a família.

Quando conseguimos compreender o desenvolvimento de maneira ampla, deixamos de olhar somente para aquilo que falta e passamos a reconhecer também as habilidades já adquiridas, as potencialidades e as possibilidades de evolução.

Ao final, uma boa avaliação não deve entregar apenas números, protocolos ou uma conclusão diagnóstica. Ela deve produzir compreensão.

Porque avaliar uma criança é entender onde ela está hoje para ajudá-la a avançar amanhã.

É quando conseguimos transformar o conhecimento sobre aquela criança em possibilidades concretas de cuidado, intervenção e desenvolvimento que a avaliação cumpre, de fato, sua principal função.

*Silvia Kelly Bosi é neuropsicopedagoga especialista em Transtorno do Espectro Autista (TEA), doutoranda em Psicologia e mestre em Intervenção Precoce.